sexta-feira, 6 de novembro de 2009

É possível?




Um dos anseios de toda uma geração (ou gerações) de cristãos descontentes com a igreja-instituição tem sido o de retorno ao cristianismo primitivo. É preciso perguntar se esta é uma atitude possível, e é óbvio que não tenho resposta alguma. Nem pretendo ter, ou elaborar qualquer tipo de fórmula mágica aqui neste texto. Só pretendo questionar certos aspectos desse anseio por um retorno ao cristianismo primitivo.


1) Existiu um cristianismo primitivo? Ou esta é apenas uma teorização que fizemos, criando um estágio ideal para a Igreja? Quando digo “fizemos”, não me refiro somente a nós, mas aos próprios apóstolos e escritores dos evangelhos, que podem muito bem ter idealizado aquele tipo de cristianismo na própria imagem que faziam de si, sem que ela fosse necessariamente “verdadeira”. Mas suponhamos – e eu realmente creio nisso – que o cristianismo dos dois primeiros séculos, aquele que era perseguido, comunal, fraterno, flexível e guiado pelo Espírito Santo realmente existiu, com acertos e falhas, claro, mas que prova que em determinado contexto foi possível a concretização desta forma de cristianismo. Então poderemos passar a uma segunda pergunta.


2) É possível retornar a algo do qual não viemos? Pergunto isto porque, em tese, a igreja-instituição, com os seus mecanismos de poder e seus ajustes a modelos econômicos, existe praticamente desde Constantino, lá no começo do mundo. Mesmo o mais velho dentre todos os cristãos vivos no planeta provavelmente nunca experimentou o cristianismo primitivo (talvez muitos tenham experimentado coisas semelhantes, mas isto é outro caso). Se nunca fomos “cristãos primitivos”, como poderemos retornar a este estado? Saberemos realmente que chegamos a um modelo satisfatório de cristianismo?


3) Se não sabemos exatamente para o quê estamos retornando, é possível que nosso destino não seja o previsto? O que quero dizer com este questionamento é que talvez nós acabemos “retornando” para um outro modelo qualquer, que não seja necessariamente o cristianismo primitivo. Nesse percurso, podemos chegar a um destino tão satisfatório quanto o desejado, ou então chegar a um destino tão insatisfatório quanto o ponto de partida (a igreja-instituição). Talvez, em nossa busca por algo que sequer conhecemos, simplesmente se modifique a estrutura, mas continue se mantendo uma igreja dogmática, intransigente, individualista e rígida. Um exemplo claro é a própria reforma protestante, que todos conhecemos muito bem em suas falhas (mas também em seus acertos).


4) É possível retornar, pura e simplesmente? Já que praticamente tudo (talvez somente Deus permaneça o mesmo) é diferente entre a época de Cristo e a nossa – é outra cultura, outro lugar, outros homens, outra imagem que temos de Cristo, outras tecnologias, outro sistema econômico, outro planeta (na verdade o mesmo planeta, mas alterado em suas características) etc. Então como supor um retorno? Não é mais simples supor um avanço (não necessariamente melhor, mas um avanço para algo novo)? Creio que, para retornar ao espírito do cristianismo primitivo, primeiro temos que lidar com nosso próprio meio.


5) Uma última pergunta (tentei fazer sete questionamentos, para evocar uma espiritualidade neopentecostal, mas não consegui!): é necessário que o cristianismo atual (igreja-instituição) morra, para surgir um cristianismo novo (mais próximo do modelo Jesus Cristo)? Quando leio o novo testamento, não me parece que o cristianismo primitivo tenha sufocado o judaísmo, muito menos que o tenha matado. Me parece sim, que o ensinamento de Cristo subvertia toda religiosidade judaica, criando nos próprios judeus uma nova dimensão de vida, uma nova forma de pensar. Talvez quando pararmos de propor um retorno, e de fato experimentarmos o ensinamento de Cristo na prática, toda religiosidade cristã será subvertida, e a igreja-instituição vai perder a importância, assim como o judaísmo deixou de estar em primeiro plano na vida dos judeus convertidos naquela igreja primitiva (tanto é que eles abandonaram de vez o ranço separatista de povo escolhido, misturando-se aos gentios, pagãos etc. Mas isto pode ser somente consequência do imperialismo romano)...




Deixo agora de fazer questionamentos ou opiniões, e tomo a ousadia de partir para uma afirmação poética (sem qualquer fundamento ou valor, é bom que fique claro!):


A instituição não é o inimigo. A instituição é como uma pele velha, que já não se ajusta ao corpo da cobra, e por isso vai sendo abandonada gradualmente, repelida pelo animal. O processo pode ser demorado e dolorido, mas é necessário que se faça a troca, para que o animal sobreviva. Mais tarde, esta pele que agora é nova também vai tornar-se velha e obsoleta. Mas por enquanto é o melhor que temos, e não podemos deixar de usá-la, nem deixar de lutar e sofrer por ela.



4 comentários:

Luis disse...

Pena que não dá pra comentar aqui... comentei na comunidade do Orkut!

Dgstz! disse...

Filho do Pai, Gil!!!

Parabéns mano. Reflexão claríssima!!!

Ever.TON disse...

Gostei mano.

Eu gostaria de recomendar 2 livros bem legais: "Por que você não quer mais ir a igreja" e "Repintando a igreja".

abs

Gil Costa disse...

Abraço pessoal. Vou deixar o link da comunidade Igrejas Alternativas do Brasil (lá estão acontecendo algumas discussões bastante interessantes), pra quem ainda não conhece:

http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=27168044&tid=5400962808280856453&start=1

Postar um comentário