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sábado, 2 de novembro de 2013

Amar o próximo

Você ama o próximo?

Esse é um assunto mais do que batido. Todo mundo fala, todo mundo sabe, já foram feitas várias pregações e palestras sobre o tema, mas quase ninguém consegue praticar. Talvez, um dos maiores motivos seja o desconhecimento do significado de “amor” para Deus. Amor, uma palavra tão usada, de formas tão distintas, com significados tão diversos, que é possível que o que Jesus quis comunicar ao dizer “ame o próximo”, não tenha hoje o mesmo sentido que ele desejou que tivesse. Além disso, nossa sociedade é tão egoísta, que o mais comum é vermos pessoas usarem esse mandamento como forma de proteção para seu ego e estilo de vida. Não é comum o seguinte uso: “Ué, Jesus não mandou amar o próximo? Você tem que me amar como eu sou!” ou: “Como você pode ficar indignado assim? Jesus não mandou você amar o próximo?”. Esse tipo de argumento está longe de retratar o que Jesus disse. Primeiro porque amar não tem nada a ver com aceitar tudo (inclusive em muitas situações é justamente o contrário), não ter opinião sobre nada ou ficar calado para não causar mal estar ao próximo (o próprio Jesus que o diga). Segundo, Jesus mandou cada um amar seu próximo e não cobrar que os outros o façam em benefício próprio. O amor é uma doação e não uma reivindicação!

Para entender um pouco sobre o amor que Jesus falou, temos que tentar enxergar algum exemplo prático da parte de Deus ou de Jesus. João, em seu evangelho disse: “Deus amou o mundo de tal maneira, que deu seu filho”. Temos duas palavras chave: “amou” e “deu”. Essas duas palavras nos dão uma dica sobre o significado desse amor, que não é teórico ou sentimental, mas prático. Porque amou o mundo, Deus deu algo. E não deu qualquer coisinha, um presentinho comprado no shopping ou mesmo em uma concessionária de veículos 0 km. Deus aquilo que ele tinha de melhor, de mais valioso, que lhe era insubstituível por mais poder que o próprio Deus tivesse... Jesus era insubstituível! Deus correu todo o risco. Entretanto, se o exemplo de Deus fica muito distante; afinal ele era Deus, temos o exemplo de Jesus, Deus encarnado, que como disse João mais tarde: “Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós...”. Veja bem: conhecemos o amor nisso, que ele deu! Novamente ele deu algo que não tem preço. Não pode ser reavido, não da mesma forma como foi entregue. Ele deu a própria vida! Esse é o amor de que Jesus fala. Não um sentimento, capaz de fazer bater mais forte nosso coração, suar nossas mãos ou nos levar às alturas. Mas uma decisão difícil, dura, que é capaz de nos levar à sepultura.

Você ama? O próximo?

Vamos agora para a segunda etapa dessa pequena ordem de Jesus: o próximo! Havia um homem muito bondoso, justo e fiel. Ele era dedicado à luta pelos fracos, as minorias. Ajudava em diversas iniciativas, sempre presente em manifestações populares, dedicado a ensinar a igualdade e fraternidade entre os homens. Esse homem, em uma viagem para conhecer comunidades carentes na África, se deparou com um jovem que fora assaltado e espancado. Tentou buscar ajuda com outras pessoas, mas ninguém se importava com o desconhecido. Não havia hospital público em que pudesse levá-lo e o aconselharam a chamar as autoridades e deixa-lo só. Ele desconfiava que se deixasse, o desconhecido morreria, pois sabia como era carente aquela região. Ele estava de posse de uma considerável quantia em dinheiro que iria usar para ajudar uma comunidade carente daquela cidade a ter o mínimo de condições de higiene e saúde. Pensou que poderia usar o dinheiro para buscar ajuda e interná-lo em um hospital particular, mas vacilou, pois ao salvá-lo poderia deixar de beneficiar muitos outros. Salvar o homem seria uma tarefa solitária, que não teria grande impacto social e certamente não mudaria o mundo. O que fazer?

Sem medo de errar, Jesus salvaria o desconhecido. Como posso afirmar isso? Pelo simples fato de que foi isso que ele fez! Jesus, com toda sua força, poder e liderança poderia ter feito coisas extraordinárias pela humanidade durante os poucos anos que passou no mundo. Pensem bem, as mulheres eram tratadas como lixo, a escravidão era normal, era comum o sacrifício humano em cultos, um governante tinha o direito de mandar matar todos os bebês de sua cidade, sem que nada lhe acontecesse. Jesus tinha condições de mudar tudo isso. De lutar pelos fracos, de ajudar os necessitados, de libertar os cativos e mudar os rumos daquela sociedade. Mas não o fez! O que Jesus fez foi mudar a história de indivíduos. Ele acudiu quando o fraco, o necessitado e o cativo tornaram-se um “próximo”. Ele o fez quando teve condição de olhar nos olhos deles, amá-los e mudar a história de cada um. Ele não libertou o cativo como parte de um grupo, de uma minoria; não restabeleceu a justiça social. Ele libertou a adúltera que seria apedrejada em sua frente, o cego que o interpelou pelo caminho, a mulher à margem da sociedade por causa de um fluxo de sangue que tocou em suas vestes, o cego que gritou em seu socorro... Ele não lutou pelas minorias, ele lutou por pessoas; ele não amou as minorias, ele amou os que cruzaram seu caminho; ele não libertou o escravo de seu amo, ele libertou o escravo de si mesmo. Ele amou os discípulos, serviu aqueles que andavam com ele, comiam com ele, dormiam com ele; e os amou até o fim, mesmo em meio a muitas falhas.

Você ama o próximo como a ti mesmo?

Por que Jesus falou para amarmos o próximo como a nós mesmo? A resposta é simples: porque se amarmos alguém como nos amamos ele não será mais um na multidão. Não será uma causa a ser defendida, uma classe de pessoas a ser auxiliada. Afinal, quando se trata de amor não queremos ser mais um na multidão. Queremos alguém que nos ouça, que olhe em nossos olhos, que valorize nossos problemas, que esteja conosco nas nossas necessidades, lutas e fraquezas. Dizer eu amo os pobres da África, eu amo as crianças ou eu amo os injustiçados é pura balela. Você não ama nada! Você pode ter dó, piedade, misericórdia ou algo assim. Amor não. Veja bem, não estou afirmando que não devemos lutar contra as desigualdades sociais, em favor do oprimido. Estou dizendo que lutar pelos oprimidos não é amar o próximo. Se você luta pelos oprimidos, parabéns! Continue em sua labuta e desejo-lhe vitória em todas as suas batalhas. Mas se você não ama o próximo, não está cumprindo o mandamento de Jesus. Um não substitui o outro. Jesus não lutou pelas classes oprimidas de seu tempo, mas amou intensamente todos que cruzaram seu caminho. Militar pode ajudar a melhorar a sociedade, se obtivermos sucesso, amar certamente muda a nós mesmos e a quem amamos, e sempre se obtém sucesso. Talvez não o sucesso pomposo que se obtém ao ser um líder social que logra êxito em seus projetos...

É certo que, se todos amassem o próximo não seria necessário luta social... Isso é possível?

Eu acho o seguinte: nunca alcancemos uma sociedade em que todos amem o próximo. Entretanto, aos que se dizem seguidores de Jesus, amar o próximo é obrigatório. Boa sorte!


sábado, 5 de outubro de 2013

Seguir os passos de Jesus – Somos inúteis

O primeiro ponto, e talvez o mais importante a ser observado para se obter algum êxito em seguir os passos de Jesus, é entender, no mais profundo do seu ser, que você é um inútil [1]. Faça uma busca em seus livros cristãos e jogue fora todos os que dizem que você é especial, filho do Rei, que Deus tem um propósito maravilhoso para sua vida, que você é cabeça e não cauda, que você nasceu para dominar as nações e todas essas baboseiras. Não dê esses livros para ninguém, prestaria um desfavor a um amigo. Separe-os e toque fogo em todos eles. Faça uma fogueira santa e dance alegremente em volta das chamas. A verdade que deve ser entendida é que você é inútil para o Reino de Deus [2], você não serve, não tem nada de especial e muito menos tem um chamado para ser alguém especial. Fique feliz se conseguir ser mais um em Cristo [3].

O segundo ponto é: além de você ser inútil, Deus não lhe promete nenhum tratamento especial por ter decido aceitas as Boas Novas do Reino [4]. Nenhuma diferença no dia-a-dia, nenhuma vantagem sobre as demais pessoas, e nem mesmo uma vida mais feliz e tranquila. A verdadeira promessa que nos foi dada é contrária a isso tudo [5]. Se alguém lhe prometer algo diferente do que o próprio Jesus prometeu, fique atento, é fraude das brabas [6]! Se você está indo de vento em popa, sem nenhuma preocupação e todas as coisas cooperam para seu bem estar, desconfie. O que deve estar ocorrendo é que você se moldou há esse século [7] e está totalmente vendido ao príncipe desse mundo [8], vivendo na arrogância e se achando um cristão de primeira estirpe, um abençoado. Se colou algum adesivo no carro dizendo: ganhei de Jesus, sou filho do Rei ou pior, não sou dono do mundo, mas sou filho do dono, a coisa está péssima para seu lado. Afinal, pense bem, que é o dono desse mundo [9]?

Temos que lembrar, sempre, que nem mesmo Jesus se achava alguma coisa, ou fazia alguma coisa porque ele era bom; ou se achava bom [10]. Tudo o que ele fazia vinha do Pai, nada era diretamente dele [11], de sua capacidade ou da lembrança de sua vida pregressa nos céus. O fato é que Jesus fez algo impensável. Abriu mão de tudo o que era para tornar-se servo [12]. E olha que o que ele abriu mão está infinitamente mais distante do que qualquer coisa que possamos comparar em nossas vidas. Ele abriu mão da eternidade, abriu mão de ser Deus, abriu mão de todas as suas prerrogativas celestiais. Se ele apenas negasse sua infinita grandeza divina e viesse para reinar na terra, subjugar todos os reinos como homem, só que sujeito às mazelas da humanidade, já seria algo impressionante. Mas, além disso, ele, inexplicavelmente veio servir a humanidade que não tinha nenhum interesse por ele [13]. E pior, não veio servir com sua infinita capacidade, inerente a sua posição e conhecimento, veio ser submisso em tudo a Deus. Não pode nem usar seu imenso potencial [14].

Então para seguir Jesus precisamos começar do começo. E o começo é renunciar a tudo o que somos e temos [15], todas nossas fortalezas e fraquezas. É entender que sem Jesus nada podemos fazer [16]. É nos revestirmos do mesmo sentimento que houve nele [12] e, mesmo sendo dignos de grandes coisas, nos tornarmos servos obedientes a Deus, sabendo que tudo que é bom vem dele [17], deve ser feito por ele e todo crédito vai para ele [18]. Para nós não tem glória, para nós não tem prêmio, para nós não tem pagamento, pois somos inúteis, fazemos apenas a nossa obrigação [19]. A única coisa que podemos obter, se de fato somos como Jesus, é o mesmo tratamento que ele obteve [20]. Se estivermos sendo tratados melhor do que ele, certamente não estamos buscando o mesmo que ele buscava.

Então, quando sentir que foi injustiçado, que as pessoas estão sendo hipócritas e só você é verdadeiro. Quando for traído e perceber que todos falharam com você, ao invés de sair por ai praguejando, dizendo que não existe igreja, que Deus é papo furado, fique alegre [21]. Afinal, foi assim que aconteceu com Jesus, ele foi traído pelos mais íntimos [22], abandonado pelos amigos [23], injustiçado pelos mesmos que curou nas ruas, pois escolheram salvar o ladrão e crucificá-lo [24]. E pasmem, não praguejou contra Deus, nem mesmo ficou de mal de seus amigos [25]. E sobrou espaço em seu coração para perdoar os guardas que praticaram atrocidades com ele, pois “não sabiam o que estavam fazendo” [26]. E, se ficar difícil, pois afinal, você merecia algum tipo de respeito e consideração, lembre-se que Jesus, esse sim merecia respeito e consideração. Ele deixou o céu, abandonou todo o poder e eternidade, para se tornar mortal e finito. Foi injustiçado, ultrajado, torturado e morto, sem nenhuma culpa. Você, provavelmente, é tão falho, hipócrita, mentiroso, traíra, quanto àqueles que condena. Talvez, seja apenas incompetente para estar por cima e injustiçar os outros... ainda não teve essa oportunidade. Ou teve, aproveitou e nem percebeu.

[1] Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis.Não há quem faça o bem, não há nem um só. Romanos 3:12
[2] Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. João 15:5
[3] Onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo, e em todos. Colossenses 3:11
[4] Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos. Mateus 5:45
[5] Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo. João 16:33
[6] Novamente o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles. E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares. Mateus 4:8-9
[7] E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus. Romanos 12:2
[8] Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência; Efésios 2:2
[9] Sabemos que somos de Deus, e que todo o mundo está no maligno. 1 João 5:19
[10] E Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém há bom senão um, que é Deus. Marcos 10:18
[11] Mas Jesus respondeu, e disse-lhes: Na verdade, na verdade vos digo que o Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma, se o não vir fazer o Pai; porque tudo quanto ele faz, o Filho o faz igualmente. João 5:19
[12] Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Filipenses 2:6-8
[13] Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. João 1:11
[14] Mas é para que o mundo saiba que eu amo o Pai, e que faço como o Pai me mandou. João 14:31
[15] E dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me. Lucas 9:23
[16] Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. João 15:5
[17] Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação. Tiago 1:17
[18] Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém. Romanos 11:36
[19] Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer. Lucas 17:10
[20] Lembrai-vos da palavra que vos disse: Não é o servo maior do que o seu senhor. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa. João 15:20
[21] Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós. Mateus 5:11-12
[22] E Jesus lhe disse: Judas, com um beijo trais o Filho do homem? Lucas 22:48
[23] Então, deixando-o, todos fugiram. Marcos 14:50
[24] Disse-lhe Pilatos: Que é a verdade? E, dizendo isto, tornou a ir ter com os judeus, e disse-lhes: Não acho nele crime algum. Mas vós tendes por costume que eu vos solte alguém pela páscoa. Quereis, pois, que vos solte o Rei dos Judeus? Então todos tornaram a clamar, dizendo: Este não, mas Barrabás. E Barrabás era um salteador. João 18:38-40
[25] Disse-lhes Jesus: Vinde, comei. E nenhum dos discípulos ousava perguntar-lhe: Quem és tu? sabendo que era o Senhor. Chegou, pois, Jesus, e tomou o pão, e deu-lhes e, semelhantemente o peixe. E já era a terceira vez que Jesus se manifestava aos seus discípulos, depois de ter ressuscitado dentre os mortos. João 21:12-14
[26] E, quando chegaram ao lugar chamado a Caveira, ali o crucificaram, e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda. E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. E, repartindo as suas vestes, lançaram sortes. Lucas 23:33-34

Agradecimento a Bíblia online (www.bibliaonline.com.br) por facilitar o copiar e colar.

Postagem original: http://filhoimperfeito.blogspot.com.br

sábado, 4 de junho de 2011

Sexo e cristianismo

Quebro esse período de afastamento do blog para escrever sobre esse tema que surgiu no grupo Igrejas Alternativas do Facebook. Como troll moderado que sou, acho que a brincadeira, se bem direcionada gera amizades e descobre afinidades. Logo uso o grupo para me divertir e manter contato com amigos, tem sido ótimo! No entanto para escrever algo sério o espaço do Face foi pouco...

Sexo e afetividade
Acredito em um Deus generoso que nos presenteia com prazeres que dão cor a nossa existência. O sexo é um deles. Entretanto, parece que o uso desses prazeres de forma desenfreada e sem direção traz dano ao corpo e alma do ser humano. A minha impressão é que cada prazer está associado e uma necessidade física, mental ou emocional. O prazer sexual está ligado a necessidade de afetividade, assim como o paladar a necessidade de alimentar ao corpo. Já ouvi relatos de adeptos do sexo casual e segundo eles o maior prazer não é o coito, mas a sensação de ser querido, desejado e dominar o sexo oposto.

Observando pessoas envolvidas em um meio onde o sexo casual é aceito e às vezes incentivado, a impressão é que existe uma necessidade de aumentar a dose de extravagância para atingir o mesmo nível de satisfação. Incluo também pessoas adeptas a pornografia, que a cada dia buscam imagens mais radicais. Alguns perdem emprego, família e às vezes, a dignidade.

Portanto, me parece que o sexo que faz bem é o proporciona não apenas o prazer sensual (dos sentidos), mas também o prazer afetivo. Todo o ser humano, independente da fé, necessita ser amado e ter um relacionamento especial com o sexo oposto. Se você não tem interesse em meditar sobre Deus, seu caráter; sobre a vida de Jesus, pode para por aqui e tenha uma vida feliz!

Sexo e cristianismo
Ao falar sobre sexo e cristianismo a abordagem muda de foco. A ótica não é mais centrada somente no ser humano e em como usar o prazer sexual para uma vida sadia, mas em entender o que Deus tenta comunicar com o prazer e a privação do mesmo. Uma das marcas populares do cristianismo são suas leis, que impedem o pleno aproveitamento dos prazeres disponíveis. Por quê? Acredito que uma parte dos cristãos obedece sem meditar seriamente no motivo, outra parte desobedece e diz que obedece e outra parte tenta mudar as leis para que se adéquem ao seu estilo de vida.

Não tenho a intenção de exaurir o assunto ou trazer a plena verdade, mas desejo compartilhar uma meditação. Ao estudarmos os ensinos de Jesus expressos nos evangelhos, poucos deles nos trazem satisfação natural. Quem está cheio de vontade de amar o inimigo? Quem se alegra em dar a outra face ao ser ferido ou humilhado? Quem se satisfaz em dar esmola a todo aquele que pede? E ainda: quem está ansioso para assumir uma relação com outra pessoa até que a morte os separe, e ainda ter nessa pessoa sua única fonte de prazer sexual?

Qual é a intenção de Deus, que nos presenteia com prazeres sublimes e coloca regras para usufruí-los? Acredito que esse é o centro da questão. Se olharmos apenas pela ótica humana e natural, não faz sentido. Líderes tentam mostrar as vantagens da santidade e os castigos que recebem os que não a seguem. Balela! Uma pessoa que nunca se preocupou com o evangelho, teve uma vida focada em sua satisfação pessoal, manteve vários parceiros sexuais, pode morrer velha, rica e feliz, enquanto um crente fiel pode fazer uma transfusão de sangue, pegar AIDS e morrer com a doença que dizem que é castigo de Deus para os chamados imorais. Qual o benefício nisso?

Outra explicação comum é a vida eterna. Oh, delícia, receber após a morte um galardão, que ninguém sabe de fato o que significa e morar no paraíso. Por isso sim, vale a pena negar os prazeres, pois estou de olho na recompensa futura e quando lá chegar irei tripudiar dos infiéis que se esbaldaram em seus prazeres. É isso? Se essa for a única motivação estamos falando de um negócio: não uso disso, para depois usar daquilo. Também não explica o fato de Deus, em sua infinita sabedoria, graça e amor, ter feito os prazeres para se tornar nossa pedra de tropeço.

O ponto central que vejo nos ensinos de Cristo é que Ele ensina aquilo que viveu. Ele amou os inimigos, deu a outra face, deu esmolas, atendeu a todos os pedintes, obedeceu ao Pai em tudo, foi humilde podendo ser arrogante, foi servo podendo ser rei, foi pobre podendo ser rico, deixou toda sua fortuna (um valor inestimável) e veio viver conosco; como homem. Chega a beirar o absurdo! Vamos pensar: haveria prazer em Cristo se descesse da cruz quando fustigado a fazê-lo? Decerto que sim. Haveria satisfação em dominar os hipócritas, vencer os exércitos e tomar o governo a força? Inevitavelmente! Ou não? Uma coisa é certa: se haveria prazer e Ele não fez, podendo fazer, não se parece comigo, pois eu faria. Se não haveria prazer em fazer, se parece menos ainda comigo, pois eu acho que seria um prazer imensurável dar uma lição nos hipócritas e em Roma.

Não seriam então os ensinos de Cristo focados em nos fazer como Ele e o Pai e não na negação dos prazeres para recebermos recompensas? Uma mudança sutil? Não creio. E se para sermos transformados necessitamos possuir uma minúscula amostra do poder do Pai, para que negando seu uso possamos ser transformados a semelhança daquele que nos criou, que pode tudo e não o faz? O foco então é SER como Ele, não TER algo Dele. Loucura?

Pode homens e mulheres comuns desejarem ser como Deus? Adquirir seu caráter, se parecer com Ele? Qual o preço disso? Tenho para mim esse é o centro do evangelho, isso me motiva a continuar admirando Deus, Jesus, o Espírito. Enxergar seu caráter, sua vida, sua natureza, nas palavras escritas, santificadas ou não, nos livros, nas pregações. Porções de Deus ministradas por pessoas imperfeitas como você e eu. Que em um momento, no monte são instrumentos vivos do Espírito e na sequência pedra de tropeço para o mestre e instrumento de satanáz.

Ao pensar em Deus, seu caráter e natureza, não tenho nenhuma dúvida de que Ele é homem de apenas uma mulher, fiel e capaz de se entregar por ela. Para mim, tenho provas suficientes de seu amor, aceitação, perdão e fidelidade. Ele aguarda sua noiva e irá desposá-la, enquanto isso permanece santo, independente da postura de sua amada. Poderia simplesmente destruir tudo, separar-se da criação e arrumar outra. Ou mesmo fazer outra, agora perfeita, sem repetir os erros da primeira, e adulterar com ela.

Portanto, com todas as minhas forças, quero ser como Ele: fiel, perdoador, homem de uma única mulher, que zela e cuida sendo capaz de morrer pela amada sem titubear. Encontrar no sexo mais do que um prazer sensual ou uma ligação afetiva, mas a celebração de uma aliança, de uma união que só a morte pode separar. Acredito que todos que confessam o nome de Cristo devem levar essa marca. Vejo que as palavras de Jesus sobre o assunto, retratadas por Matheus, Marcos e Lucas, bem como a inspiração de Paulo ao escrever sobre o tema refletem esse caráter, essa inspiração divina.

Para finalizar, no dia 18 de junho deste ano celebro 17 anos de casamento, e agradeço ao meu bom Deus que permitiu que eu casasse com esse desejo, de ser como Ele. Por isso hoje posso celebrar com minha esposa e filhos, como família.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Se eu fosse Deus

Se eu fosse Deus seria um tirano,
a nenhum mortal daria livre-arbítrio
Todos os pensamentos passariam pelo meu crivo
e apenas os aprovados habitariam as mentes

Pesaria os sentimentos em minha balança,
para os leves habitarem o coração dos homens
Forçaria o riso espontâneo e a lágrima de alegria
Nos rostos expressão de felicidade desenharia

Não haveria o abandonado e o nu,
nem quem tivesse mais que seu próximo
pois de tão próximos seriam um.

A única lei seria o amor entre os homens
Pois pensando bem, esse Deus que eu seria,
ao homem como ele é, não amaria.

Escrito por Marcos Siqueira em 22 de setembro de 2010.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Sobre Deus

Os seres humanos especulam a respeito de Deus há alguns milhares de anos. Eu, por ser também um humano, não me furtarei a fazer a mesma coisa. Entretanto, distante do dogmatismo típico de alguns setores religiosos, quero deixar claro que minha posição não passa de especulação, dessas assim feitas na mesa do bar, no ônibus ou sentado no vaso sanitário. Este pensamento me ocorreu enquanto navegava pela internet. A parte que fala sobre Kafka me ocorreu um pouco antes, durante uma palestra sobre o mesmo escritor, proferida pelo filósofo Benedito Nunes.

Me lembro bem que há algumas horas atrás eu frequentava um fórum de discussão virtual, no qual o assunto era a homossexualidade dentro da igreja cristã. Ou melhor, a aceitação da homossexualidade pela igreja cristã. Em outro fórum outras pessoas discutiam a respeito de interpretações do texto bíblico. Aparentemente, todos os usuários da internet possuem convicções autênticas diretamente reveladas por Deus. Alguns até fazem dEle as suas palavras, dizendo: “Deus não se agrada disso, Deus não se agrada daquilo”. Tais pessoas têm muita sorte por Deus não processá-las por uso indevido de imagem, difamação, ou simplesmente mandar chuva lá de cima até que todo mundo morra afogado.

Minha especulação sobre Deus não tem pretensões tão altas. Aparentemente não faço a menor ideia do que se passa pela cabeça dEle. E talvez não faça sequer ideia do que se passa pela minha própria cabeça.

Prossigamos.

Minha especulação diz respeito ao modo como Deus se relaciona com os seres humanos. Se a bíblia estiver certa, sabemos que Ele trava esse relacionamento através do Espírito Santo. O que não significa que sabemos de alguma coisa. Outros, mais ortodoxos e amantes da palavra escrita, confiarão à bíblia a tarefa de orientar os seres humanos, conjuntamente com o Espírito. Eu eliminaria a bíblia desta história, ou melhor, não a eliminaria, mas reduziria o seu papel, que me parece estar supervalorizado. A bíblia, sem o Espírito, não serve para muita coisa. São só palavras, e os livros não transformam ninguém.

Então temos o Espírito, além de uma primeira orientação do seu trabalho: se Ele atua através da bíblia, então o Espírito age em uma perspectiva intelectual. Não creio ser essa uma conclusão satisfatória. As operações intelectuais não transformam de todo as pessoas, é preciso de algo mais. De boas intenções o inferno está cheio. Existem muitos que compreendem a mensagem do amor, mas que não a colocam em prática. O Espírito precisa de uma segunda orientação para seu trabalho: a perspectiva da ação. O conhecimento intelectual e o conhecimento prático do evangelho são duas camadas que se sobrepõe mutuamente, se interpenetram.

Entretanto, o prisma intelectual é um engano. Muitos são os meios pelos quais os seres humanos “aprendem” a serem “bons”. Os instrumentos morais que a sociedade inventa, as leis, as instituições, tudo isso é prova de que o lado intelectual da coisa não funciona. É pura dissimulação. O homem impregnado de uma retórica que o protege da verdadeira finalidade: a prática. A receita do bolo sem que ninguém tenha a disposição para fazê-lo.

Definitivamente, minha especulação não compactua com a ideia de que Deus se relacione com os seres humanos através da intelectualidade. Intelectualidade no sentido de apreensão cultural, de utilização da linguagem. Exterminem os programas de teleproselitistas, mas Deus continuará agindo em nosso meio. Cortem as línguas de todos os cristãos, mas Deus continuará agindo em nosso meio. Queimem todas as bíblias, todos os livros que falem sobre o amor e coisas boas, e Ele continuará dando as caras.

Minha especulação, caro leitor, supõe que Deus não se relacione com os seres humanos através de linguagem. Não podemos compreendê-lo e apreendê-lo intelectualmente, racionalizá-lo, esquematizá-lo, nem em um ciência positivista e tampouco em uma ciência relativista e pós-moderna. Não existe ciência de Deus, no sentido de conhecimento sobre. Toda teologia é sobre homens, e não sobre deuses.

Não quero limitá-lo a acreditar que Deus é incapaz de relacionar-se conosco através de nosso intelecto. Até porque tudo em nós é intelecto. O que quero dizer é que este relacionamento é de outra ordem. Que chamem de absurdo, de inexprimível, indizível, mas palavra alguma poderá revelar Deus aos humanos. Nem palavras, nem qualquer outro tipo de linguagem. Ele é radicalmente distinto. Ele é Espírito, e como tal, age em nosso espírito, fomentando mudanças práticas e atitudes (como se pode constatar nas histórias dos evangelhos) e não mudanças intelectuais. Não é o crer, mas o fazer crendo.

Não sei até que ponto a crença é importante para o relacionamento com Deus, isso tudo permanece obscuro e faz doer meu cérebro ao tentar compreender. Como eu disse, minha especulação é justamente a da incompreensão do relacionamento com o divino.

Mas lembre-se: é apenas uma especulação.



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Existe um conto de Franz Kafka que é bastante conhecido, chamado Metamorfose, que já faz parte do cânone da literatura mundial. Nele, Gregor Samsa acorda metamorfoseado em um inseto, sem qualquer explicação aparente. Sua família, é claro, sente-se extremamente surpreendida com o fato. No desenrolar dos acontecimentos, Gregor Samsa vai gradativamente perdendo todos os laços afetivos com a família, até que esta não reconheça no inseto o filho que havia antes. Gregor acaba morto, varrido por uma empregada.

Há ainda outro conto de Kafka, um pouco menos famoso que o anterior, chamado Relatório para uma academia, no qual um macaco conta sua história desde o momento em que foi capturado na floresta até o momento em que escreve o tal relatório, contando todo o processo gradativo no qual se ajusta à sociedade humana, adquirindo diversos conhecimentos que o fazem um exemplar raro, híbrido entre animal selvagem e humano culto.

Em Metamorfose o que está sublinhado, pelo menos para mim, é o processo de desumanização de Gregor Samsa, até o momento em que ali já não existe um membro da família, mas somente um inseto. O tempo todo, porém, Gregor está consciente de sua situação de inseto. Seu intelecto ainda é humano. Para a família, porém, aos poucos Gregor perde a capacidade de se comunicar: sua voz transforma-se apenas em zumbidos animalescos, seus gestos corporais são apenas movimentos de inseto. Não há ponte que possa fazer a ligação entre ele e os demais seres humanos. Não existe linguagem capaz de fazer esta ponte.

Em Relatório para uma academia o que está sublinhado (repito: pelo menos para mim), é o processo de humanização do macaco. Sua lenta e gradual aquisição da linguagem humana, em uma luta travada tanto pelo macaco quanto pelos humanos que lhe serviram de mestres. Aquisição da linguagem verbal, gestual, escrita, comportamental. O macaco aprende a se comportar tal qual um humano, sem ignorar sua natureza de macaco. O que o faz dar este salto qualitativo, de macaco a humano, é a necessidade de uma saída. Uma saída que o desobrigasse das prisões destinadas aos animais, e o permitisse as “liberdades” destinadas aos homens. Este salto qualitativo, é claro, é o domínio da linguagem. A linguagem serve de ponte para que o macaco se humanize e se relacione com seus “semelhantes” a partir de então.

A linguagem não está no homem, mas o homem é que está na linguagem. A linguagem o domina, o utiliza. Gregor está inviabilizado para tal uso. Portanto, aos poucos deixa de ser reconhecido como humano, até que finalmente sua família o tem por completamente desumanizado. Apenas um inseto inconveniente e asqueroso. Já o macaco, através de um esforço enorme, salta da linguagem de primata para a complexa linguagem dos humanos.

Partindo disso, quero voltar para minha especulação a respeito de Deus.

A linguagem – principalmente nossas linguagens idiomáticas, que permitem a racionalização do conhecimento – é responsável pela quebra do relacionamento entre Deus e os homens. O momento em que tentamos compreendê-Lo é o mesmo momento em que Ele nos escapa. Quando tentamos transubstanciá-lo em versículos, liturgias ou preleções estamos apenas criando cultura. Estamos humanizando algo que é da ordem do divino, intelectualizando algo que é da ordem do espírito. Criando somente códigos simbólicos que não possuem valor algum, além do valor cultural/intelectual.

Uma vida cristã autêntica, segundo minha especulação, deve percorrer o caminho inverso daquele ensinado pela igreja, pela escola, pelas instituições. Não se parte de um conhecimento socialmente construído para uma vivência pautada nesse conhecimento. Não se aprende o bem para praticá-lo. Não. A vida cristã é de uma direção inversa. Deveremos ignorar, sempre que necessário, todo o conhecimento culturalmente adquirido, e partir para uma vivência pautada no relacionamento direto com Deus, sem mediações, através da própria imanência do Espírito em nós. Nossas ações guiadas através de Deus, tudo na ordem do indizível, inexprimível absurdo. Partindo desta vivência de mundo, iluminada pela divindade, é que construiríamos um repertório intelectual.

Em suma, não agir segundo a moral dura, repressiva e burra ensinada pela sociedade. Essa moral que é criada apenas para manter o funcionamento de todo um sistema de valores econômicos, políticos, religiosos, culturais etc. Não devemos agir segundo essa moral, que nos é imposta da sociedade e internalizada. Deveremos, sim, agir conforme a ética que surgirá do relacionamento entre os seres humanos. Ética que deve nascer do amor. Já não se trata de tratar o mendigo, o empresário ou o sacerdote conforme a moral, a etiqueta, o código cultural ensina. Mas sim de agir individualmente, conforme a ética criada na relação entre os indivíduos, pautando-se no amor para construir relações verdadeiras e afirmativas da potência da vida.



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É claro que esta é uma situação idealizada. Para que ela acontecesse, seria necessário que já nascêssemos conscientes de nosso relacionamento com Deus. O que não deixa de ser uma hipótese interessante: será que já não é inerente a todo ser humano tal relacionamento? Não com o Deus quadrado e restrito do cristianismo, mas com a noção geral de Deus, de força cósmica, de prática do bem e do amor.

O que também me agrada nesta especulação é a aniquilação do relacionamento com Deus mediado pelo conhecimento. Nunca simpatizei com um Deus erudito. Se o relacionamento não é racionalmente compreensível, então não se torna restrito para as pessoas com deficiências cognitivas e intelectuais. Quem disse que os autistas não se relacionam com Deus e vice-versa? Bem, sabemos que quem disse isso foi a própria Igreja...

Afinal, prosseguindo com o exemplo do autista, tal indivíduo pode não possuir a capacidade intelectual de compreender os dados do evangelho racionalmente. Ele não poderá pronunciar as palavras mágicas, não confessará Jesus como único senhor e salvador de sua vida. Está excluído, portanto, do povo remido pelo sangue, num fantástico golpe de marketing da teologia cristã em geral, centralizando o amor de Deus nas mãos dos detentores do código cultural. Mas pergunte a mãe de um autista do mais alto grau se ele é capaz de amar, e vejamos o que ela responderia. O amor não conhece as fronteiras da linguagem ou do intelecto, afinal ele é afirmação da vida, e a vida é imanente a todos os seres humanos (mesmo aqueles de comportamento condicionado pela moral social vigente, como eu). O relacionamento com Deus ultrapassa a necessidade da crença, da confissão da fé cristã. Entretanto, talvez não ultrapasse a necessidade da atitude, da prática cristã.

O problema todo começa quando passamos ao relacionamento propriamente dito. Sem receita de bolo nós, seres humanos, nos sentimos desamparados. A imanência direta de Deus nas nossas ações, a chamada prática do amor (seja ele cristão ou ateísta), requer um outro tipo de salto qualitativo, diferente daquele dado pelo macaco em direção à linguagem. É o salto em direção ao absurdo de Kierkegaard. O passo em direção a atitudes autênticas, não programadas racionalmente, atitudes de afirmação da vida (principalmente afirmação da vida do outro).

Viver este relacionamento é a parte mais fácil e mais difícil. Fácil porque, como eu e minhas especulações malucas diríamos, é bem razoável que a relação com Deus seja inerente ao ser humano. Essa capacidade de amar que todo mundo parece ter, nem que seja a de amar unicamente a própria vida. E difícil porque, para manter tal relacionamento, seria necessário que nós nos despíssemos aos poucos das mediações culturais e intelectuais que fazemos a todo o momento. Seria preciso respirar por um momento fora da cultura, ignorá-la. Esquecer da bíblia, dos evangelistas, dos poetas, dos hereges, dos amores, e deixar que somente a voz de Deus se sobressaia. A voz de Deus, obviamente, não é compreensível ao nível da linguagem, mas somente ao nível do corpo em ato, da prática, do fazer. Não é apropriado dizer “voz de Deus”, mas talvez seja mais como um comando, um impulso exercido sobre nós, por livre e espontânea vontade nossa. A permissividade do servo ao seu senhor. Assim como a permissividade do senhor em se revelar íntimo ao seu servo.

Vale dizer que não vejo este relacionamento com Deus como uma colocação mística, um transe espiritual. Espiritual sim, mas nem sempre um transe. O relacionamento com Deus é aquilo que nos coloca em experimentação direta com nosso próprio cotidiano; não pela ótica dos comportamentos determinados pela cultura e convenções sociais, mas sim pela ótica dos comportamentos autênticos, criativos e possibilitados pelo amor. Relacionar-se com Deus é relacionar-se com o mundo, com o outro e consigo próprio.

Espero não ter pronunciado nenhuma blasfêmia.

Saliento mais uma vez que isso tudo é apenas uma especulação. Como não sou nada espiritual, fico exercitando meu intelecto na tentativa de aprisionar Deus em algumas folhas de papel. Apesar de que nunca funciona.

Eu passarei. Eles passarão. Deus passarinha.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Painel de José Régio

Sei que o luar era medonho, era amarelo, e que tudo isto me parece um pesadelo, e creio, talvez, que meu vago pensar me transporte para o momento mesmo em que, com tanta angústia, atravessei o portal que me separava da crua, fria e intensa realidade, daquele caminho cheio de pedras que nos leva da vagina maternal ao buraco na terra que maternalmente nos engole.

O que importa é o riso doido e cínico, sem regra, que subia em mim como uma onda negra, e, estrelados de lágrimas, meus olhos inocentes ajoelhavam ante os dois vultos desmedidos que me esmagavam, crescendo sempre, entre meus risos e gemidos, entre os quais me sentia pequeno e miserando.

Os dois homens se portavam um a cada lado meu, sem que me atrevesse a olhá-los, apenas adivinhava-os e pressentia-os, um dos quais de vestes brancas e limpas, a face reluzente de anjo de luz, o olhar plácido e cativante, as meigas palavras, as doces lágrimas, as promessas, as mãos eclesiásticas e macias que provavelmente beijei, como que para pedir a benção, todo trêmulo e confuso, cheio de amor e de terror por esse intruso.

O outro, figura peregrina, com olhar profundo, mãos grossas e sujas, aroma doce de bálsamo disfarçando o odor fétido do corpo suado e do sangue derramado, porventura culpado de derramar muito sangue, sua face despida de qualquer beleza ou encanto, suas promessas desprovidas de qualquer sedução, diante do qual me postei de pé, como que insultado pela afronta da presença de tal moribundo, que despertava em minha memória vozes funestas que advertiam: carrega tua cruz!

E como eu não o fizesse, o desgraçado em afronta ainda maior tomou todo o jugo do meu fardo sobre seus próprios ombros. E pus-me a segui-lo.

Ou melhor, dispus-me a segui-lo, entretanto sem nunca tê-lo feito.

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Este texto faz alusão ao poema Painel, do português José Régio.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Igrejas são reality shows

O fato de um sujeito como eu assumir que possui o hábito de assistir Big Brother Brasil 10 é constrangedor, mas terei que fazê-lo para dar início a este texto. Admito que BBB 10 seja fútil, medíocre, entretenimento barato, apelação gritante. E é por isso que eu gosto tanto de assisti-lo. Nem tanto por aquelas bundas maravilhosas de fio dental, mas sim porque me divirto de forma sensacional vendo um grupo de pessoas mostrando aquilo que de mais perverso (e ao mesmo tempo mais típico) pode existir no ser humano: o egoísmo.

E é por isso que afirmo, neste texto e para fins didáticos, que as igrejas são reality shows como o BBB. Igrejas talvez sejam o antro mais antigo do egoísmo que perdura na superfície da Terra. Onde houver religião, haverá seres humanos egoístas. A religião está diretamente vinculada ao princípio da punição e recompensa (mesmo que na além vida), e é por isso que se vincula ao egoísmo: no fundo, o que todos querem é salvar a própria pele. É evidente que Jesus propõe uma lógica radicalmente distinta (a graça como favor imerecido dado por Deus, ao mesmo tempo que institui a exigente lei do amor), mas não vamos entrar em detalhes.

Quando vejo um programa como o BBB, é óbvio que não estou vendo pessoas, mas personagens. Personagens calcados em pessoas, mas editados, cortados, manipulados, transformados em imagem, subvertidos, expandidos, recalcados e maquiados. Mas nem por isso a existência dentro da casa deixa de ser real e torna-se uma atuação. Não existe atuação no sentido de predeterminação de um roteiro. As coisas simplesmente vão acontecendo, de acordo com os caminhos trilhados pelos personagens reais. E é neste ponto que o egoísmo entra em cena: o BBB pressupõe um vencedor, dado seu caráter de jogo. Todos ali buscam uma recompensa, mas ao mesmo tempo precisam forçosamente esquecer que fazem parte de um jogo. Ou melhor, aparentar este esquecimento e assumir um “jogar com o coração”, já que a permanência dos mesmos no jogo só existe na medida em que são aceitos pelo público. Ou seja, na medida em que seus personagens tornam-se convincentes, e são recompensados pelo público com mais uma semana de permanência naquela boa vida.

As igrejas seguem uma lógica aproximada. Os personagens estão ali, e assim como os do BBB, estes também constroem sua cena, sua narrativa, partindo da imprevisibilidade das situações reais. Cada jogador, também chamado de irmão (à semelhança de brother), busca sua(s) recompensa(s): desde a vida eterna até desejos mesquinhos como o reconhecimento passageiro. No BBB a lógica do jogo requer que os irmãos sejam eliminados um a um. Na igreja a lógica do jogo pressupõe que novos brotheres sejam convertidos, gerando prestígio para a casa que mais frutifica. No BBB, os personagens disputam sua recompensa tendo que simular a ausência desta disputa: não podem deixar seu egoísmo transparecer, sob o risco da punição dos olhares vigilantes uns dos outros, e também dos olhares do público. Na igreja, os personagens buscam cada qual sua própria recompensa, tendo que simular igualmente a ausência desta disputa, e ainda cometer hipocrisia maior: fingir que estão destituídos de qualquer egoísmo e que estão movidos pelo amor a Deus e ao próximo. E não deixam transparecer seu egoísmo com ainda maior afinco: é preciso que seus personagens, além de serem convincentes uns aos outros, convençam igualmente a si próprios, já que o reconhecimento do próprio egoísmo poderia colocar tudo a perder.

Nisto, os brotheres só não convencem a Deus, que tudo vê, mesmo aquilo que está em secreto. Resta saber se Deus está ainda disposto a recompensá-los no decorrer ou ao final do programa (já que seu favor é imerecido), mesmo sabendo que a exigente lei do amor foi substituída pela onipresente lei do egoísmo.

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Eis que me ocorre que, apesar de me sentir liberto da vigilância da igreja, olho para minha própria existência e comprovo, com pesar, que no fundo nunca deixei de ser apenas um personagem. O reality show expandiu seus limites: das paredes do templo para as fronteiras da vida. Sela lá onde estiver, percebo que continuarei simulando um personagem, buscando minha(s) recompensa(s), convicto das minhas próprias boas intenções, ocultando todo e qualquer resquício do meu egoísmo.

Descubro, talvez tarde demais para um recomeço, que não eram as câmeras que moldavam meu egoísmo, mas sim meu egoísmo que instalava câmeras para que o tempo todo eu mesmo (ou meu personagem) estivesse sob os holofotes.

Percebo, talvez até com maior atraso, que ser cristão é de fato uma opção bastante inglória: ao invés de amarmos uns aos outros até o ponto de oferecermos nossa própria vida pelo próximo, o máximo que nosso egoísmo permite é que ofereçamos – num movimento contínuo – a morte de Cristo pela vida daqueles que nós deveríamos amar. E Cristo, como ovelha muda, continua morrendo dia após dia.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

No amor não existe medo (por Assir Pereira)

Nosso tempo é marcado pela insegurança e pela incerteza. A violência nos é apresentada, a cada dia, com novos coloridos e contornos. É a violência nas ruas, nos lares e nos estádios. Sofremos, a cada minuto, agressões de todos os tipos e naturezas. Agressões físicas, morais, espirituais.
Somos agredidos na nossa liberdade. Nossa intimidade é invadida e vasculhada pela televisão agressora. A unidade da família é ameaçada pela sociedade capitalista que nos leva ao consumismo, obrigando cada membro da família a auxiliar na busca do sustento e da sobrevivência. A distribuição injusta das riquezas, com poucos tendo muito e muitos não tendo nada, violenta a dignidade do mais pobre, que se vê só, abandonado e sem proteção. A criança, mesmo tendo recebido um “ano internacional” só para ela, continua ainda sua via crucis. Ela é agredida na sua formação. A delinquência juvenil cresce. As crianças abandonadas se multiplicam. Febem, Cetrem, albergues e abrigos não comportam a demanda dos que deles dependem. Os que são recebidos por esses órgãos são tratados com descaso e desamor.
A criminalidade e a marginalidade crescem assustadoramente. Uma em cada dez pessoas sofre algum tipo de violência diariamente em São Paulo. A natureza é violentada e na guerra ecológica está sempre no vermelho.
O trânsito mata. O trombadinha mata. A poluição mata. A falta de segurança no trabalho mata. Por uma palavra a mais ou a menos o homem, nesta conturbada cidade, mata. A imprensa e muitas vezes até o púlpito ensina: “Desconfie de todos”.
Esta é a civilização do medo. Ninguém está seguro. O futuro parece sombrio e incógnito. Sofremos uma crise de amor. Vivemos uma inflação de auto-amor. O amor que deveria ser dado ao próximo tem sido desviado para alimentar nosso egoísmo. Temos nos esquecido de que esse é um amor roubado. Na ordem natural de Deus, esse amor deveria ser dado ao outro.
Nosso culto por causa dessa ótica distorcida tem caído apenas na verticalidade. Vou ao templo para adorar a Deus. Minha adoração tem sido solitária, e não solidária. Temos nos esquecido de trazer a comunidade inteira à luz de Deus.
A verdadeira adoração ao Senhor é aquela que não exclui o meu irmão. Não existe amor a Deus sem amor ao outro, ao pobre, ao abandonado, ao nu, ao rico, ao branco, ao negro.
Só este culto restaurará o homem. Só este amor criará o novo homem e a nova humanidade. Para João, só neste amor ficarei livre do medo (I João 4:18a).

Fonte: PEREIRA, Assir. Homem, onde estás?: igreja aqui e agora. São Paulo: WVC, 2000. pp. 39-40).

Não sei quem é Assir Pereira, mas concordo com o que ele disse.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Que mentira!



Uma pessoa comum mente 4 vezes ao dia, e 1460 vezes ao ano. Aos seis anos, uma pessoa já mentiu cerca de 88 mil vezes.



A mentira mais comum é
"Tá tudo bem comigo".


quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Verdades espirituais

Tenho me perguntado se, afinal, existem verdades “morais” inerentes a todos os seres humanos, assim como existem verdades científicas. Temos que respirar, comer e dormir, independente de sermos budistas, ateus, mexicanos, holandeses, homens ou mulheres. Não existe “certo ou errado” em respirar, assim como não existe “certo ou errado” em dizer que mamíferos mamam. Simplesmente são verdades científicas, que posteriormente podem ser derrubadas por outras verdades ainda mais cientificamente verdadeiras que estas.


Mas minha dúvida não tem a ver com ciência, e sim com a existência pressuposta de um tipo de verdade que não é científica, mas, digamos, espiritual. Por espiritual quero dizer relativo à moral, aos deveres do ser humano para com seus semelhantes e para consigo. Traçando um paralelo com a ciência, ouso afirmar que não estamos lidando com o bem ou o mal, mas com a própria natureza humana, ou aquilo a que esta natureza se inclina a ser. Não sei bem se a natureza humana se inclina para algum tipo de verdade espiritual, já que parecemos ser todos imorais e injustos, mas talvez seja esta natureza mesma a nossa. Nossa verdade espiritual pode ser totalmente imoral (segundo nossos padrões morais estabelecidos, mas nunca cumpridos). São quase dez da noite e este último parágrafo me deixou completamente confuso, mas vou tentar prosseguir.

O que me pergunto, afinal, é se Jesus Cristo, que creio ser a manifestação máxima de Deus aos homens, portava e ensinava essas verdades espirituais, que também se manifestaram em outros grandes vultos históricos. É claro, é de um vigor impensável despir a figura de Cristo, e de tantos outros, de todas as camadas mitológicas que vão se sobrepondo com o decorrer dos anos e dos discursos. E é justamente por isso que me indago a respeito de verdades espirituais. Para conhecer verdadeiramente a Cristo, portanto, não seria preciso escavar na história, na teologia ou na filosofia, bastaria encarnar as verdades espirituais que Ele professava.

Se as coisas realmente são desta maneira, a religião torna-se relativizada, assim como a pessoa-imagem de Cristo, não sendo acessível somente através de um conhecimento da verdade, uma gnose, mas tão somente através de uma manifestação de características indissociáveis do próprio ser humano (as tais verdades espirituais). Agora isso já não me cheira tão bem... Se são verdades espirituais, típicas do ser humano, por que tantos se desviariam daquilo que lhes é mais intrínseco? Corro o risco de acabar mergulhado na velha dualidade grega “corpo versus alma”, “matéria versus espírito”. Definitivamente não pretendo colocar a culpa nas nossas pulsões carnais. A rigor, até onde sei, o ser humano é matéria. É provável que ele possua algo além, algo que denominamos alma ou espírito, mas não sei se esse espírito pode ser separado da matéria. E a Bíblia não parece indicar que espírito e corpo possam andar separados.

Porém, voltando à minha dúvida, verdades espirituais corresponderiam aquilo que muitos chamam de humanidade, no sentido de complacência, compaixão. Este termo, claro, exclui outros animais da possibilidade de sentir e agir de maneira solidária com outros, da sua espécie ou não. Mas não vem ao caso. O que eu quero saber é por que diabos as pessoas, algumas vezes, cometem “burrices” (em uma perspectiva evolucionista e de sobrevivência da espécie), pois frequentemente elas abrem mão de seu próprio bem-estar e decidem correr riscos em nome da compaixão que sentem pelo outro, naquilo que denominamos “ajudar”. É essa espécie de instinto cooperativo que penso fazer parte desse repertório de verdades espirituais. Quando sentimos a dor pelo outro e tomamos o seu sofrimento para nós, me parece que estamos “praticando” estas verdades. A bondade, portanto, seria uma destas verdades. Reconheço, entretanto, que todos os adjetivos que possamos criar (bondade, amor, compaixão, solidariedade) parecem mais tipos ideais, inalcançáveis, permanecendo o ser humano na oscilação da incapacidade de ser ideal ou perfeito.

Claro, se afirmarmos a existência de verdades espirituais inerentes ao ser humano estaremos abalando as nossas próprias concepções religiosas. Concepções estas que se baseiam na posse de um algo especial: fazer parte do povo eleito, estar na religião certa, seguir a sã doutrina. Não, verdades espirituais do tipo que desconfio existir não se prestariam a tais exclusões. Elas seriam universais, e independeriam de cultura, manifestando-se mesmo em todas as pessoas, nas mais diversas situações, podendo ser reprimidas, castradas ou manifestas e multiplicadas.

O termo “verdade” é até inadequado. Considero mais como “tendências espirituais”, uma espécie de propensão a manifestar a “humanidade” que Deus pôs em cada um de nós.

O óbvio é que o amor seria a principal tendência espiritual. O paradoxo é que nós sempre iremos reprimi-lo (ou melhor, não cumprimos a lei do amor, mas nunca chegamos a substituí-la). Nossa natureza, ao que parece, é antiamorosa, antissolidária, individualista. Mas em poucos momentos deixamos vir à tona esta tendência ao amor. Deve ser por isso que Cristo propôs uma disciplina séria para que seus discípulos o seguissem: abandonar a si mesmo, não querendo salvar-se. Ele provavelmente sabia do que estava falando. Eu, no entanto, não posso dizer o mesmo a meu respeito...

Com João ouso dizer que Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus (I João 4:16). Seria o amor uma tendência espiritual, que foi manifesta em Gandhi, em Betinho, em Madre Teresa, em Maomé? Um ser humano, ao praticar o amor, aproxima-se de Deus e permanece nele, a ponto de estar conhecendo-o?

Nesse caso, não faz sentido preocupar-se com salvação, conversão (à religião), sectarização, pois a fé, quando trazida para o campo do social, já demonstrou ser capaz de articular hecatombes e desastres de todo tipo. E até mesmo porque Jesus Cristo já falou que o Reino está em nós. Cumpre que deixemos este Reino se manifestar o quanto antes.

Bem, não sei mesmo se as tais tendências espirituais existem, mas não consigo crer em um Deus que se deixe pertencer a apenas alguns, por conta da posse do laço sanguíneo (Israel), do livro (Bíblia) ou do credo (cristianismo). Deus, em minha opinião, tem que estar em todos, em tudo, manifesto na plenitude de seu ser porque, afinal, Ele é Deus. Pode parecer um esforço exagerado da minha parte em tentar moldar Deus conforme minhas concepções, mas posso assegurá-los de que todas as outras concepções têm o mesmo valor que a minha, ou seja, absolutamente valor algum. Deus é incompreensível ao homem, e tudo que falamos, fazemos e pensamos a seu respeito são apenas especulações. O homem moldando Deus a sua imagem e semelhança.

Você entendeu o que eu quis dizer? Nem eu.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Por Júlia Bárány Yaari

Veio como uma criança indefesa, outros dizem que é lenda.
Há dois mil anos falamos dele. Ele mudou o mundo e cada um de nós, mesmo que não tenhamos consciência disso.
É a figura histórica a respeito de quem mais se escreveu, mais se inquiriu. As divergências na compreensão de seus ensinamentos já existiam entre os próprios apóstolos, antes mesmo de sua partida. Embora suas palavras, registradas por seus seguidores conforme se lembravam delas no mínimo trinta anos depois de sua morte, sejam simples, transmitindo conceitos básicos repetidos de diversas formas, o entendimento não é fácil, pois supõe uma mudança interior.
Ele usou discurso direto com os mais íntimos, mas com o povo falava por parábolas, como se faz com criancinhas que aprendem por meio dos contos de fadas e histórias.
Os documentos históricos e os registros de seus ensinamentos passam periodicamente por depurações e reformulações, na busca da verdade. Diferentes grupos disputam o reconhecimento como detentores das palavras autênticas dele. Artistas têm procurado esta verdade por meio da música, da pintura, da escultura, da literatura, cada obra sendo uma interpretação pessoal do autor.
Cada um projeta o seu Jesus com as características que lhe dizem aquilo que deseja ouvir. Instalam-se os estereótipos. Manifestam-se os ideais, as aspirações, os anseios.
Passamos a duvidar se é possível chegar aos fatos incontestáveis sobre sua vida, descobrir as palavras que ele de fato proferiu. Se é possível escavar através de camadas e camadas de interpolações, interpretações, encobrimentos, descobrimentos, interesses mundanos, ou simplesmente da ignorância e fraqueza dos seres humanos que promoveram guerras e cometeram atrocidades em seu nome. Se é possível encontrá-lo livre dos dogmas, não engessado em instituições que manipulam as pessoas para firmar seu poder.
Onde encontrá-lo?
Cada um que procura o seu Jesus o encontra dentro de si mesmo.
E nessa multiplicidade de seres ele se esparrama como chuva de estrelas, cada uma com seu brilho próprio, feitas, no entanto, todas da mesma essência de luz. Qual é mais verdadeira que as outras? Na obra aberta, como é a obra de Jesus, a maravilha é que todas são verdadeiras.
(...)




Fonte: Prefácio de Júlia Bárány Yaari para Yeshuah.
FERREIRA, Laudo. Yeshuah: assim em cima assim embaixo. São Paulo: Devir, 2009.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Quem fala através da igreja evangélica?

Me perguntei, e ainda me pergunto, se posso chamar a pluralidade de denominações, culturas, doutrinas que encontramos no Brasil de algo como “igreja evangélica”, que representaria um todo. Não, essa unidade não existe, está claro. Mas digamos que com “igreja evangélica” eu queira me referir a um sistema, uma grande produção e manutenção de discursos acerca da(s) igreja(s) evangélica(s). Estes discursos dizem respeito à verdade – no sentido de Foucault – que orienta, reprime, molda, ajusta os comportamentos e doutrinas evangélicas. Não há unidade e nem coincidência de pensamentos, é óbvio, há o embate, a exclusão, o choque de pensamentos diferentes, e é justamente isso que constitui este grande discurso, de um possível grande sistema da “igreja evangélica”.




Quem é que produz esta verdade? Quem fala através da igreja evangélica?


Estas questões talvez sejam insolúveis mesmo. Mas tudo fica mais fácil se começarmos a pensar não “quem”, mas “como” essa verdade é produzida e mantida, e o “por quê”.


A “verdade” existe para controlar, é ideológica. Serve para a manutenção de um poder. Na verdade de vários poderes, em maior ou menor grau. Poder que é exercido por todos, ou pelo menos por muitos. Exerce esse poder, proporcionado pelo estabelecimento da “verdade”, tanto o pastor, o reverendo, o sacerdote, quanto o leigo que apenas ouve e assimila estes discursos: ao reproduzi-los o leigo torna-se também portador de uma verdade espiritual, portanto diferenciado dos demais seres humanos não-espirituais.


A verdade estabelecida pelo sistema “igreja evangélica” serve para legitimar a hierarquia simbólica entre pessoas: uns mais espirituais, em maior comunhão divina, mais santidade do que outros. Essa verdade é mantida através de comportamentos: as roupas e o isolamento dos crentes (há algumas décadas), a indústria cultural gospel (hoje em dia). A diferenciação é necessária, e ela precisa ser explicitada através do comportamento, para que a verdade possa ser efetivamente bem sucedida na manutenção dos poderes espirituais conferidos diretamente por Deus aos líderes espirituais da humanidade.


Além de masturbar os egos (daqueles que se deixam iludir por um cristianismo das aparências sociais), a verdade também possui um viés econômico-político. Ela é útil porque faz a máquina funcionar, e por isso ela também é mantida. Além disso, é flexível e mutável, porque necessita sempre se ajustar ao sistema capitalista tardio que vivemos. Sem um retorno econômico-político, a verdade deixa de ser interessante, e é substituída por outra mais rentável. É por isso que as doutrinas da igreja – à semelhança de Cristo – nascem, crescem, morrem e são ressuscitadas, assentadas à direita de Deus Pai, para serem novamente descartadas e substituídas. Quem se beneficia da manutenção da verdade pela “igreja evangélica”? Muitos, e não somente líderes religiosos, mas também pessoas que nem sequer possuem vínculo com a igreja (mas possuem vínculo com quem lidera a igreja). Não são poucos os políticos não-evangélicos que são apoiados pela igreja evangélica, por associação ou afinidade com as lideranças religiosas. Claro, tudo feito em nome de Jesus e para a glória do Senhor.


A verdade gera mercado, gera cantores que cantam a verdade, músicos que tocam a verdade, poetas que declamam a verdade, apresentadores de tv que apresentam a verdade, grifes de roupa que vestem a verdade e por aí vai. A verdade é produzida e circula, nas rádios, nas televisões, nos púlpitos, nas estampas de camisetas, nos blogs, no comportamento das pessoas. Ela circula para se manter, sobrevive enquanto puder circular, e se modifica para não se tornar obsoleta.


O mais importante, e talvez mais controverso, ponto de referência da produção desse discurso – do sistema “igreja evangélica” – é a Bíblia, até mais do que o próprio Jesus Cristo. Mais do que a própria Palavra Viva, do que o próprio Verbo, porque a Bíblia é um registro, um documento, é estática, estanque, palavra que mata, espírito que vivifica. Ela pode ser torcida, tingida ideologicamente, manipulada, tudo com o respaldo divino, já que está tudo impresso, tinta no papel, palavras que o vento não leva. Ela é a base padrão, à qual sempre se recorre quando se quer produzir e manter um discurso oficial, verdadeiro, da igreja.


Quem produz essa verdade? Como a produz? Por que a produz? Como a mantém?


Perguntas complexas e respostas inatingíveis.


Mas existe outra verdade, aquela que é também o caminho e a vida; a verdade que verdadeiramente liberta; que não pode ser ensinada, mas deve ser vivida; verdade que não constitui poder e autoridade, senão a autoridade de tomar sua cruz e o poder de renunciar a própria vida; verdade que não serve para dominar, mas para romper grilhões. Essa verdade é Jesus Cristo, e creio que não é ele quem fala através da igreja evangélica.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Pedras ou tijolos?


Quando se constrói uma casa hoje em dia, qual o material básico para levantar as paredes? Certamente são os tijolos. Tijolos são feitos em larga escala, obedecendo uma padronização de tamanho que facilita a construção e a torna mais rápida e eficiente. Imagine se você fosse incumbido de construir uma casa de pedras. Inicialmente deveria procurá-las, pois não são fabricadas. Depois de juntá-las seria necessário estudar onde encaixar cada uma, pois são de tamanhos e formatos diferentes e quando melhor encaixadas menos massa entre elas. Seria penoso carregar pedras grandes, trabalhoso usar as pequenas para tapar frestas; é uma obra realmente demorada!!! Muito mais rápido e prático construir com tijolos, não?

Pedro fala um pouco sobre a edificação da igreja comparando com a construção de uma casa. Fica claro a matéria-prima que o Pai usa em sua construção: pedras vivas. Os grandes empreiteiros da fé, na pressa de construir “suas igrejas” aprenderam que se constrói mais rápido com tijolos, em uma cultura onde todos pensam iguais e são treinados a terem o mesmo formato, o mesmo pensamento. Lançam métodos revolucionários de crescimento, transformam pedras em tijolos e rapidamente levantam as paredes e terminam sua obra. Se algum tijolo quebrar não tem problema; existem milhares de outros do mesmo tamanho saindo da fornada é só trocar. E olha que a troca é constante...

Mas o Pai é um Deus de diversidade! Ele fez cada um com uma característica e como pedras vivas a casa de Deus desfruta de uma diversidade santa, amável, respeitosa e principalmente em total submissão ao Pai. Cada pedra tem seu formato, seu talento e edifica todo o Corpo à medida que cresce no conhecimento de Deus e renuncia seu ego, deixando o pecado e se unindo a Cristo e a Igreja. Trabalhar com pedras é mais demorado, machuca as mãos, mas à medida que o próprio Deus, pela atuação de seu Espírito e pela edificação do próprio Corpo as une, então se estabelece a Igreja de Jesus.

Na construção com tijolos, após passar massa e pintar, cada tijolo some, não é mais visível, agora faz parte de uma organizada parede. Não tem mais como expressar o seu sacerdócio único, expressa apenas a idéia de seu construtor. Na construção de pedras cada uma tem o seu local, sua importância e apesar de fazer parte de uma grande e sólida parede continua ali, manifestando seu sacerdócio de forma única. Ao se rasgar o véu, todos fomos feitos sacerdotes do Deus vivo e pedras na construção da igreja de Jesus, sua noiva. Não se deixe enganar pelas aparências, pelas facilidades e pela velocidade; Igreja só de pedras.

"Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo." IPd.2:4
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domingo, 29 de novembro de 2009

Carta a um pedinte

Outro dia fui abordado por um homem, negro, aparentando cerca de trinta anos, mal vestido e sujo, portando uma caixa de madeira. Me pareceu uma mistura de mendigo com engraxate. Eu esperava o ônibus em uma avenida bastante movimentada, de mochila, bermuda e sandália. Havia outras pessoas no local, mais bem vestidas, com cara mais amigável. Mas aquele homem não abordou nenhuma destas pessoas, ele veio até mim.

Fico pensando que talvez fosse um anjo, se eu acreditasse em anjos. Mesmo que não tenha sido um enviado divino, devo reconhecer que era o próprio Cristo, afinal o evangelho registra as palavras Dele quando diz que o que fizermos ao menor de seus irmãos, estaremos fazendo ao próprio Cristo (Mt 25:40).

O homem, ou anjo, o próprio Cristo, veio falar comigo, e me suplicou DEZ CENTAVOS, porque queria COMPLETAR UM REAL pra comprar um copo de salada de frutas. Ele dizia que a fome dói, e ensaiava um choro forçado. É claro que eu tinha dez centavos, e na verdade eu devia ter cerca de oitenta, noventa reais na carteira (o que não é muito comum). Eu poderia ter dado aquele homem uma nota de dez, uma de cinquenta, ou até mesmo tudo que eu tinha, que provavelmente não me faria tanta falta.

No entanto, sem titubear eu acenei com a cabeça, e disse a ele que arranjaria o dinheiro sim, então puxei a carteira e meti meus dedos na parte das moedas, e puxei de lá todas as moedas que tinha: uma de vinte e cinco e outra de dez centavos. TRINTA E CINCO CENTAVOS, e entreguei para ele. O homem ficou muito feliz, e provavelmente achou até que havia recebido muito, e que eu era um jovem generoso.

No mesmo momento em que ele disse “Deus abençoe” e virou de costas, pensei que poderia ter dado a ele pelo menos uma nota de dois reais. Mas permaneci estático, esperando o ônibus. O ônibus, porra, o ônibus, eu precisava sair dali o quanto antes. Logo depois o homem passou de volta, com seu copo de salada de frutas na mão. Sorrindo, olhou pra mim e agradeceu mais uma vez. Acenei com a cabeça, derrotado, corrompido.

Sei que talvez você nem saiba ler, irmão. É provável que seu lar seja um papelão em uma calçada do centro da cidade, e que você morra sem nunca ter tocado em um computador. Mas te escrevo esse pedido de desculpas, porque eu preciso exorcizar essa culpa de dentro de mim. Essa carta não é só para você, é para mim, é para todos, é para Deus.

Me perdoa, porque tiveste fome e não te alimentei, tiveste sede e não te dei de beber, estavas nu e eu não te vesti, eras estrangeiro e não te hospedei, estavas doente e não te visitei, estavas na prisão e não fui te ver. Preguei a tua palavra, Senhor, me fiz de doutor da lei, aparentei te conhecer, mas tudo isso foi levado pelo vento, e tudo secou como a erva do campo, porque me deixei contaminar e me conformei à maldade do mundo.

Esses trinta e cinco centavos talvez tenham saciado a tua fome naquele momento, mas em mim fizeram exatamente o inverso: me fizeram sentir um fome insaciável de Deus, porque percebi que tenho andado distante do seu amor, imerso na minha autosuficiência.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Medidor de bondade

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

É possível?




Um dos anseios de toda uma geração (ou gerações) de cristãos descontentes com a igreja-instituição tem sido o de retorno ao cristianismo primitivo. É preciso perguntar se esta é uma atitude possível, e é óbvio que não tenho resposta alguma. Nem pretendo ter, ou elaborar qualquer tipo de fórmula mágica aqui neste texto. Só pretendo questionar certos aspectos desse anseio por um retorno ao cristianismo primitivo.


1) Existiu um cristianismo primitivo? Ou esta é apenas uma teorização que fizemos, criando um estágio ideal para a Igreja? Quando digo “fizemos”, não me refiro somente a nós, mas aos próprios apóstolos e escritores dos evangelhos, que podem muito bem ter idealizado aquele tipo de cristianismo na própria imagem que faziam de si, sem que ela fosse necessariamente “verdadeira”. Mas suponhamos – e eu realmente creio nisso – que o cristianismo dos dois primeiros séculos, aquele que era perseguido, comunal, fraterno, flexível e guiado pelo Espírito Santo realmente existiu, com acertos e falhas, claro, mas que prova que em determinado contexto foi possível a concretização desta forma de cristianismo. Então poderemos passar a uma segunda pergunta.


2) É possível retornar a algo do qual não viemos? Pergunto isto porque, em tese, a igreja-instituição, com os seus mecanismos de poder e seus ajustes a modelos econômicos, existe praticamente desde Constantino, lá no começo do mundo. Mesmo o mais velho dentre todos os cristãos vivos no planeta provavelmente nunca experimentou o cristianismo primitivo (talvez muitos tenham experimentado coisas semelhantes, mas isto é outro caso). Se nunca fomos “cristãos primitivos”, como poderemos retornar a este estado? Saberemos realmente que chegamos a um modelo satisfatório de cristianismo?


3) Se não sabemos exatamente para o quê estamos retornando, é possível que nosso destino não seja o previsto? O que quero dizer com este questionamento é que talvez nós acabemos “retornando” para um outro modelo qualquer, que não seja necessariamente o cristianismo primitivo. Nesse percurso, podemos chegar a um destino tão satisfatório quanto o desejado, ou então chegar a um destino tão insatisfatório quanto o ponto de partida (a igreja-instituição). Talvez, em nossa busca por algo que sequer conhecemos, simplesmente se modifique a estrutura, mas continue se mantendo uma igreja dogmática, intransigente, individualista e rígida. Um exemplo claro é a própria reforma protestante, que todos conhecemos muito bem em suas falhas (mas também em seus acertos).


4) É possível retornar, pura e simplesmente? Já que praticamente tudo (talvez somente Deus permaneça o mesmo) é diferente entre a época de Cristo e a nossa – é outra cultura, outro lugar, outros homens, outra imagem que temos de Cristo, outras tecnologias, outro sistema econômico, outro planeta (na verdade o mesmo planeta, mas alterado em suas características) etc. Então como supor um retorno? Não é mais simples supor um avanço (não necessariamente melhor, mas um avanço para algo novo)? Creio que, para retornar ao espírito do cristianismo primitivo, primeiro temos que lidar com nosso próprio meio.


5) Uma última pergunta (tentei fazer sete questionamentos, para evocar uma espiritualidade neopentecostal, mas não consegui!): é necessário que o cristianismo atual (igreja-instituição) morra, para surgir um cristianismo novo (mais próximo do modelo Jesus Cristo)? Quando leio o novo testamento, não me parece que o cristianismo primitivo tenha sufocado o judaísmo, muito menos que o tenha matado. Me parece sim, que o ensinamento de Cristo subvertia toda religiosidade judaica, criando nos próprios judeus uma nova dimensão de vida, uma nova forma de pensar. Talvez quando pararmos de propor um retorno, e de fato experimentarmos o ensinamento de Cristo na prática, toda religiosidade cristã será subvertida, e a igreja-instituição vai perder a importância, assim como o judaísmo deixou de estar em primeiro plano na vida dos judeus convertidos naquela igreja primitiva (tanto é que eles abandonaram de vez o ranço separatista de povo escolhido, misturando-se aos gentios, pagãos etc. Mas isto pode ser somente consequência do imperialismo romano)...




Deixo agora de fazer questionamentos ou opiniões, e tomo a ousadia de partir para uma afirmação poética (sem qualquer fundamento ou valor, é bom que fique claro!):


A instituição não é o inimigo. A instituição é como uma pele velha, que já não se ajusta ao corpo da cobra, e por isso vai sendo abandonada gradualmente, repelida pelo animal. O processo pode ser demorado e dolorido, mas é necessário que se faça a troca, para que o animal sobreviva. Mais tarde, esta pele que agora é nova também vai tornar-se velha e obsoleta. Mas por enquanto é o melhor que temos, e não podemos deixar de usá-la, nem deixar de lutar e sofrer por ela.