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terça-feira, 29 de junho de 2010

Insanidades cristãs

Hoje recebi de duas fontes distintas uma informação bizarra: abriu-se um sex shop gospel que vende produtos abençoados um a um por meio da oração do casal de proprietários. Acho lamentável o tino comercial do povo crente, que encontra um filão para ganhar dinheiro e ainda turbina seu negócio com um marketing espiritual cada vez mais bizarro. Pior ainda é a multidão gospel, afoita por novidades, que adere sem nem mesmo pensar no assunto com um mínimo de seriedade.

Não que eu tenha algo específico contra os sex shops. Eu simplesmente não sou consumidor de pornografia, mas conhecendo o mundo como vai, deve ser um negócio lucrativo. O que me espanta é a esperteza de se usar um rótulo evangélico e atingir um público totalmente alheio a qualquer bom-senso, que além de aderir à bobagem ainda fala mal do “ímpio” (nem tão ímpio assim), que freqüenta sex shops “não cristãos”. Afinal: “todos os nossos produtos foram abençoados e toda a maldição foi quebrada”! Dá vontade de mandar pra lá, não?

Que cristianismo é esse? Que droga é essa que estão dando para esses crentes que faz com que eles engulam tanta besteira com tamanha facilidade? É sex shop gospel, é pastor que dá testemunho que teve relações íntimas com demônios, é irmão que visitou o inferno e viu o diabo posando de carcereiro, é pastor preocupado em emburrecer as ovelhas para que elas continuem a prover o luxo de seu sustento. Que droga de evangelho é esse? Sou cristão, mas vendo essa porcaria que estão pregando por ai me sinto obrigado a concordar com Karl Marx... “a religião é o ópio do povo”. Aliás, tomo a liberdade de discordar somente na droga: a religião é o chá de trombeta do povo. Quem já tomou sabe do que estou falando.

Então, levantam-se do outro lado, empunhando a bandeira da santidade, os moralistas. Cristãos tradicionais, cheio de leis morais e regras de conduta, levantando a voz contra o cisco no olho do outro e em seu próprio tem dez traves. Grande parte envolvida em pecados ocultos, adultérios, mentiras, falsidades, falta de amor, politicagem religiosa e amor ao dinheiro. Basta se aproximar um pouco desses para que a verdade seja revelada. Então perdem a moral, pois as Boas-Novas não foram suficientes para transformá-los em pessoas semelhantes a Jesus, mas em pessoas como os fariseus. Cheios de aparência, sem nenhum conteúdo; ou pior, com conteúdo: carniça! Não sei qual postura dá mais nojo.

Então o mundo assiste de camarote essa demência coletiva que se tornou o cristianismo “gospelizado”. Somos escárnio, motivo de chacota em programas humorísticos, de piada em roda de amigos. E tudo com plena razão. De um modo geral os cristãos estão se tornando um bando de alienados, massa de manobras de pessoas mal-intencionadas, de empresários prá lá de espertos, de pastores que comem exclusivamente carne de ovelhas. E tudo isso com o rótulo gospel, abençoado pelas orações, e com um toque de missão evangelística. Acordem tolos, antes que seja tarde! Olhem para Jesus, para a sua obra, sua vida. Para a vida dos apóstolos. É tão difícil perceber que tem algo errado?

Esse desabafo eu termino com um lamento: se hoje eu não conhecesse Jesus e o evangelho, NUNCA, NUNCA me tornaria cristão pelo testemunho público da igreja. Preferiria zelar pela minha sanidade mental.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Pastor americano diz que Haiti paga por pacto com o diabo





O Haiti, arrasado por um terremoto de 7 graus na escala Richter na última terça-feira (12), paga por ter feito um pacto com o diabo há 200 anos. É o que diz Pat Robertson, pastor pentecostal que já foi pré-candidado republicano à Presidência dos Estados Unidos (em 1988) e é muito conhecido entre os norte-americanos por declarações polêmicas em seus programas evangélicos na TV.

Robertson já chegou a dizer que o presidente venezuelano Hugo Chávez deveria ser assassinado, que a doença do ex-primeiro ministro israelense Ariel Sharon era um "castigo divino" e que as feministas ainda iriam queimar os próprios filhos na rua e viver de feitiçaria.

Em todas essas vezes, o pastor foi obviamente condenado pela opinião pública. Agora ele resolveu aparecer novamente de forma vexatória na mídia mundial. Em programa no canal Christian Broadcasting Network, Robertson contou uma história maluca sobre a independência do Haiti, ocorrida em 1791 - depois dos Estados Unidos, o Haiti foi o segundo país das Américas a se declarar independente. Os escravos haitianos, vindos da África e praticantes de vodu, teriam feito um pacto com o demônio para se libertarem da França, segundo o pastor.

"Algo aconteceu há muito tempo no Haiti e as pessoas talvez não queriam falar sobre isso. Eles estavam sob domínio francês, no reinado de Napoleão III, e fizeram um pacto com o diabo. Disseram: 'Vamos servi-lo se nos libertar do Príncipe'. É uma história verdadeira. E o diabo disse: 'Ok, está combinado'. E os franceses foram expulsos. Os haitianos revoltaram-se e conseguiram libertar-se. Mas, desde então, foram amaldiçoados", declarou Robertson. Para ele, com a tragédia, "é hora dos haitianos se curvarem a Deus".

A reação foi imediata. O embaixador do Haiti nos Estados Unidos, Raymond Joseph, disse num programa da rede NBC que Robertson deveria se envergonhar e lembrou que a independência do Haiti encorajou uma série de outros países latino-americanos a fazerem o mesmo, inclusive o Brasil.

Dando uma aula de história ao pastor, Joseph lembrou ainda que os Estados Unidos também se beneficiaram da revolta no Haiti, já que depois desse evento a França cedeu a Louisiana por US$ 15 milhões na época (1803). "Isso equivale a três centavos por acre", disse o embaixador haitiano.

Retirado de Yahoo! Notícias

COMENTÁRIOS: SEM COMENTÁRIOS (pastorzinho de merda, viu...)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009





Em meio a uma série de denúncias de intolerância religiosa, a Praia de Copacabana servirá de altar para um casamento entre uma umbandista e um evangélico num culto ecumênico unindo características das duas religiões.

O evento vai acontecer no dia 29 de dezembro, que foi oficializado pela prefeitura como a data da comemoração antecipada de Yemanjá. É que embora a oficial seja 2 de Fevereiro, no Rio tradicionalmente era reverenciada na noite de 31 de dezembro, prática que foi diminuindo com o crescimento da festa de Réveillon na orla carioca.


“Será o primeiro realizado na praia com uma união inter-religiosa. O casamento vai ser antecipado com uma carreata que parte do Mercadão de Madureira no meio da tarde percorrendo vários bairros até Copacabana. Esse é o sétimo ano que a festa de Yemanjá é realizada no dia 29″ – revela Sheila Reis – integrante do departamento de Marketing do Mercadão que está comemorando 50 anos de fundação.


Fonte: RSZD [via PAVABLOG e ADIBERJ]

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Jesus no evangelismo


Na estória anterior deixamos Jesus cultuando o Pai em uma roda com pessoas de má índole na Rodoviária do Plano (veja em: http://filhoimperfeito.blogspot.com/2009/09/encontro-inusitado.html). Lá estava Ele, conversando com desocupados, alguns aparentemente bêbados quando chega um jovem com folhetos na mão:

- Boa tarde, posso dizer algumas palavras para vocês? – o rapaz chega tímido, estendendo a mão com um folheto em direção a Jesus.

- Boa tarde. – alguns respondem, enquanto outros começam uma conversa paralela. Jesus pega o folheto e passa para um homem ao seu lado.

- Você poderia deixar alguns desses folhetos conosco? – pergunta Jesus olhando o jovem visivelmente constrangido. – Você está com vergonha?

- Nããããããooo, eu não tenho vergonha da Palavra. Na bíblia diz que aquele que se envergonhar de Jesus diante dos homens, Ele vai se envergonhar dele diante do Pai. Eu não tenho vergonha do evangelho, por isso que saio evangelizando. – A conversa paralela aumenta, mas Jesus e 2 outros se detêm no rapaz, ainda mais constrangido ela pergunta de Jesus.

- Ah... me pareceu que você estava envergonhado. Não digo que do evangelho, mas da tarefa de abordar desconhecidos para entregar folhetos. Tudo bem... – Jesus olha fundo nos olhos do moço que desvia o olhar para o chão.

- De forma alguma senhor... é uma honra proclamar as Boas-Novas! – o rapaz continua de cabeça baixa pensando em como sair da situação constrangedora com aquele estranho.

- Que bom! É sempre gratificante encontrar alguém interessado em falar sobre as Boas-Novas do Reino. Acredito que nem todos aqui estão interessados, mas como pode ver, eu e esses 2 colegas estamos prontos para receber as novidades que você tem. Diga lá, quais as Boas-Novas? – Jesus fecha uma roda com ele, os outros 2 colegas maltrapilhos e o jovem recém chegado.

- Ééééééé, entãoooo... tá no folheto ai. Jesus morreu por todos nós para a gente ir morar com Ele no céu. Entãooooo... ai no folheto tem os detalhes, horários de culto. Se vocês puderem vão lá à igreja. Hoje mesmo tem culto da prosperidade lá. – Jesus estende a mão para receber o folheto, pois o jovem ainda não havia entregado. Nesse momento um dos colegas, até o momento calado se pronuncia.

- Pô irmão, eu sou crente sabe? Eu era da Igreja Pentecostal dos Milagres de Jesus, não tô indo, mas oro em casa, leio a bíblia sabe? Sou crente! Você tem uma ajuda ai pra me dar? To precisando muito de comer... e ai mais tarde eu vou lá para o culto.

- A minha igreja é a Igreja Internacional do Reinado do Pai, essa ai que você disse eu conheço, mas lá na nossa igreja Deus se manifesta MESMO. Se você for lá Deus vai te abençoar e tirar você dessa situação de miséria. – o rapaz se anima com o interesse do maltrapilho.

- Mas e ai, tem uma ajudinha? – ele faz uma cara de dó e coloca a mão sobre a barriga mostrando com os gestos que a fome estava grande.

- Não tenho... – antes de acabar a frase o outro retruca:

- Ué, se não funciona nem para você, eu vou lá fazer o que??? Não tem nem um trocado ai irmão?– o maltrapilho levanta a voz e se aproxima do rapaz. Jesus intervém encostando levemente a mão no peito do homem:

- Calma, fique tranquilo, eu mesmo não tenho onde reclinar minha cabeça... – o rapaz interrompe rapidamente, vendo a oportunidade de “falar sobre o Reino”:

- Então moço você tem que ir lá na igreja. Vai começar uma campanha lá de 7,77 semanas onde todos vão receber a unção de prosperidade nacional. Ai você sai da pindaíba. Paulo mesmo disse na bíblia: “Deus te chamou para ser cabeça e não cauda”!!! – Jesus olha surpreso com essa argumentação e o versículo atribuído a Paulo.

- Paulo disse isso? – olhar de Jesus não deixa o rapaz.

- Ééééé, Paulo da Bíblia, o senhor não conhece ele, mas lá na igreja o apóstolo prega, ora e as coisas acontecem. Esses dias o apóstolo comprou uma casa no Lago Sul sem nenhum dinheiro... Deus DEU PARA ELE! E ainda veio com um New Civic, aleluiasssss.

- Deus deu a ele? - Jesus olha para o céu... – e eu não tenho nem morada certa...

- É que o senhor não tem fé, por isso tá sem casa, mas vamos lá que o apóstolo vai impor as mãos sobre você para decretar a benção. A benção decretada de acordo com a palavra, Deus tem que ouvir, Ele não é homem para mentir, se tá na bíblia Deus tem que obedecer e fazer, é só decretar como está na palavra. Agora tem quer ter fé e cumprir a campanha direitinho. As coisas acontecem moço. Ôôôôôôôô glóóóóóriaassssss!!!

- É moço... – o colega faminto olha para Jesus – o rapaz tá certo. Fui um tempo na igreja e vi um monte de gente prosperar... ficar rico. Todo culto tinha um testemunho de alguém que fez a campanha e foi abençoado. Carro, casa, bens. Eu mesmo fiz a campanha, mas continuei pobre e pior, vendi o barraco lá no Jardim Ingá para semear e não recebi nada. Sou um homem de pouca fé. Não mereço ser crente... minha mulher me deixou depois que vendi o barraco. O pastor arrumou um homem de Deus para ela. Próspero. – os olhos do homem encheram de lágrimas com a lembrança, ainda doída do fracasso na fé, no relacionamento, na vida.

- Qual o seu nome? – Jesus pergunta para o novo colega.

- É Zaqueu, mas todos me chamam de Pará.

- Ééé, tem que ter fé, senão não funciona. – o jovem se emociona com a história do homem. A única explicação é a falta de fé, a culpa não é de Deus, se Deus não abençoou é porque faltou fé. – Vou indo gente, apareçam no culto depois. Pará, tenha fé... Deus vai restituir 7 vezes mais.

A roda inicial tinha dispersado ficando apenas os 2 que ouviram a “pregação do evangelista”. Jesus passou o braço pelos ombros do Pará e perguntou?

- Vocês estão com fome?

- Pô, nem me fale... véi.

Pará não respondeu e ficou cabisbaixo, perdido em pensamentos.

- E ai Pará, fome? – Jesus pergunta apertando o ombro do Pará.

- Tô não... valeu.

Mesmo com a negativa Jesus enfia a mão em na sua bolsa e retira um marmitex, entregando-o ao Pará.

- Que é isso??? – Pará fica surpreso e antes de continuar a frase Jesus retira outra e entrega ao outro faminto.

- Obrigado! – o cara olha super desconfiado para Jesus que tira um terceiro marmitex:

- Vamos comer enquanto está quente!

- De onde você tirou isso? – Pará não acreditava no que via. O marmitex estava quente...

- O Pai sempre dá o que é necessário. – Jesus finaliza tirando 3 jogos de talheres de sua bolsa.

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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Deus e o diabo



Não existe, nunca existiu e nem existirá uma luta épica entre Deus e o diabo. Satanáz sempre soube sua posição de submissão diante de Deus Pai e em nenhum momento enfrenta de frente sua autoridade e poder. Basta vermos o desespero dos demônios ao encontrarem Jesus: "Que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?" Mt.8:29.

A equação é simples: só existem trevas onde falta luz; na mínima incidência de iluminação as trevas não permanecem. Portanto o importante não é a quantidade de demônios que achamos que está perto de nós, nos outros, ou em alguns lugares, mas sim a quantidade da graça do Pai que há em nós. Onde há luz... as trevas não permanecem, onde não há, o que acontece?

"Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus. Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro; E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, Que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos." Ef.1:20-23

Filho Imperfeito: http://filhoimperfeito.blogspot.com/2009/09/deus-e-o-diabo.html

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Paralelas

Alguns paralelos traçados entre as manifestações do catolicismo popular e do pentecostalismo (e por que não protestantismo?) contemporâneo.

Resido em Ananindeua, município da região metropolitana de Belém (Pará). Norte do Brasil, fundada em 1616, Belém é uma cidade marcada pelo catolicismo – como quase todas as cidades históricas do Brasil. Uma das manifestações locais da fé católica é o Círio de Nazaré – procissão que remonta ao ano de 1793 e que atualmente envolve cerca de dois milhões de pessoas (romeiros). A procissão percorre alguns quilômetros do centro de Belém, anualmente, no segundo domingo de outubro. É um evento já incorporado à cultura do estado e do povo, onde se misturam fé, economia, mídia, política, audiovisual etc. O evento foi registrado pelo IPHAN, em 2004, como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial.


Mas existem alguns pontos interessantes, nos quais posso traçar um paralelo às práticas da religiosidade evangélica. Duas religiões (ainda que sob o mesmo rótulo de cristãs) antagônicas, que se negam mutuamente, mas que não diferem tanto assim em certos pontos.

1. Um primeiro ponto, por ser o mais óbvio, é a espetacularização do sentimento religioso. O Círio de Nazaré é um evento televisionado pelos principais canais do Pará, e até em outros estados. A repercussão é nacional, e a grandeza do espetáculo faz com que o mesmo ultrapasse as fronteiras da religião, misturando-se a economia, política, cultura etc., como já afirmei acima. Se compararmos aos megaeventos gospel, aos cultos televisionados, às marchas e arrastões para Jesus, veremos que estes não se diferenciam muito da procissão católica, no que tange a transformação do acontecimento religioso em espetáculo sociocultural. A religiosidade vaza do seu para outros círculos sociais, principalmente através dos meios tecnológicos da informação proporcionados atualmente (televisão, internet, propaganda, dentre outros).


2. Outro ponto que levanto, já tecendo um juízo de valor, é a noção de sacrifício implícita a ambas as religiões. Na procissão católica existem promessas, que devem ser cumpridas durante a procissão em troca de pedidos realizados pela Virgem de Nazaré. É comum romeiros percorrerem o trajeto de joelhos, levando réplicas de casa, barcos, partes do corpo, conforme a benção recebida. Nas igrejas evangélicas os votos são cumpridos de maneira semelhante: sacrifícios financeiros, de tempo, físicos, emocionais... A grande diferença é até irônica: enquanto os católicos sacrificam por ter recebido, os evangélicos sacrificam para receber; só muda a forma de pagamento, mas a religiosidade consumista prevalece. Há também uma questão evidente: é importante sacrificar algo em agradecimento a Deus, e este sacrifício é sempre validado pelo coletivo. Os fiéis são condicionados a manifestar seu sacrifício publicamente. Apesar de Deus estar em todos os lugares, ainda é necessário pagar suas promessas ou cumprir suas alianças na frente das câmeras, das multidões, dos olhares, do coletivo. Por isso não faz tanto sentido percorrer o trajeto do círio – em cumprimento de uma promessa – no mês de setembro; ou fazer de forma anônima uma oferta de sacrifício (dedicando tempo ou dinheiro) para uma instituição de caridade, e não em um culto sob a vigilância eclesiástica.


3. O terceiro ponto está intimamente vinculado ao anterior: o estabelecimento do sagrado nestas manifestações. O caráter do sagrado, separado, santo, pressupõe a mediação entre o ser humano comum e Deus, criando níveis de importância, e consequentemente hierarquias eclesiásticas. No Círio de Nazaré existe a imagem da santa, ao redor da qual se constrói a procissão. A corda que é utilizada para puxar a berlinda com a imagem, inclusive, é fracionada pelos romeiros à golpes de faca: cada um quer levar um pedacinho da corda sagrada como amuleto espiritual. Há também as pessoas que ocupam cargos eclesiásticos: bispos, arcebispos, padres etc., mas sem dúvida estas não são tão revestidas do caráter de sagrado do que as do meio evangélico (pastores, obreiros, reverendos e outros). Apesar da iconoclastia, no meio evangélico também existem objetos sagrados – mas sem a força que é vista no catolicismo – como os amuletos (pulseiras, prospectos, miniaturas e tudo o mais que a criatividade permitir) distribuídos nos cultos e campanhas. Essa noção do sagrado, e de mediação, é um dos motores necessários para a institucionalização da religião. É preciso acreditar em objetos, entidades ou pessoas melhores do que nós (porque mais próximos de Deus), para que a religião formal se estabeleça – com toda a dogmática que lhe é peculiar – e para que as experiências coletivas (dentre as quais o sacrifício em público) façam sentido.


4. Por fim, gostaria de questionar o caráter eventual destas manifestações religiosas. É importante perceber como estas experiências se dão de forma pontual: são acontecimentos, eventos, delimitações espaço-temporais reservadas para a comunhão com Deus. Em ambas as religiões é notório como a concepção de comunhão pessoal e cotidiana é substituída pela comunhão esporádica, programada e coletiva. A atitude de fé não mais requer uma transformação de vida constante e evolutiva (como Cristo tentou ensinar), mas sim uma participação espetacularizada e momentânea. Quanto mais gente reunida, melhor, maior ainda será a demonstração do poder de Deus. E eis um paradoxo: ao substituir a comunhão pessoal e constante por uma coletiva e momentânea, as religiões acabam invertendo as prioridades da fé: servir ao próximo deixa de ser importante, e dá lugar a um individualismo exacerbado. As grandes multidões propiciam isso: todos ali amam o ilustre desconhecido ao seu lado (reunidos debaixo da mesma bandeira), mas estão mesmo é preocupados com seus próprios problemas e interesses. Celebração do eu, grave desvio do mutualismo cristão. Não há mais um eixo que una os cristãos sob o mesmo objetivo, mas sim uma fragmentação de interesses diversos reunidos em uma mesma coletividade diluída.

Estes questionamentos que fiz, de certa forma até mesmo parciais e subjetivos (admito), tem a intenção de apontar como as características da nossa contemporaneidade (individualismo, espetacularização, diluição dos limites) refletem nas manifestações religiosas, traçando paralelos até mesmo entre expressões opostas, como o catolicismo popular e o pentecostalismo contemporâneo.

De certa forma é preciso ter coragem e força para romper com os moldes que nos são impostos pela religiosidade, e conseguir situar-se nos interstícios, nas brechas do sistema. Portanto, se você que me lê se propõe a ser igreja alternativa, mas identifica-se com a maior parte das questões aqui apontadas, sinta-se decepcionado: sua expressão de fé pode ser mais tradicional e institucionalizada do que você imagina.