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sábado, 2 de novembro de 2013

Amar o próximo

Você ama o próximo?

Esse é um assunto mais do que batido. Todo mundo fala, todo mundo sabe, já foram feitas várias pregações e palestras sobre o tema, mas quase ninguém consegue praticar. Talvez, um dos maiores motivos seja o desconhecimento do significado de “amor” para Deus. Amor, uma palavra tão usada, de formas tão distintas, com significados tão diversos, que é possível que o que Jesus quis comunicar ao dizer “ame o próximo”, não tenha hoje o mesmo sentido que ele desejou que tivesse. Além disso, nossa sociedade é tão egoísta, que o mais comum é vermos pessoas usarem esse mandamento como forma de proteção para seu ego e estilo de vida. Não é comum o seguinte uso: “Ué, Jesus não mandou amar o próximo? Você tem que me amar como eu sou!” ou: “Como você pode ficar indignado assim? Jesus não mandou você amar o próximo?”. Esse tipo de argumento está longe de retratar o que Jesus disse. Primeiro porque amar não tem nada a ver com aceitar tudo (inclusive em muitas situações é justamente o contrário), não ter opinião sobre nada ou ficar calado para não causar mal estar ao próximo (o próprio Jesus que o diga). Segundo, Jesus mandou cada um amar seu próximo e não cobrar que os outros o façam em benefício próprio. O amor é uma doação e não uma reivindicação!

Para entender um pouco sobre o amor que Jesus falou, temos que tentar enxergar algum exemplo prático da parte de Deus ou de Jesus. João, em seu evangelho disse: “Deus amou o mundo de tal maneira, que deu seu filho”. Temos duas palavras chave: “amou” e “deu”. Essas duas palavras nos dão uma dica sobre o significado desse amor, que não é teórico ou sentimental, mas prático. Porque amou o mundo, Deus deu algo. E não deu qualquer coisinha, um presentinho comprado no shopping ou mesmo em uma concessionária de veículos 0 km. Deus aquilo que ele tinha de melhor, de mais valioso, que lhe era insubstituível por mais poder que o próprio Deus tivesse... Jesus era insubstituível! Deus correu todo o risco. Entretanto, se o exemplo de Deus fica muito distante; afinal ele era Deus, temos o exemplo de Jesus, Deus encarnado, que como disse João mais tarde: “Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós...”. Veja bem: conhecemos o amor nisso, que ele deu! Novamente ele deu algo que não tem preço. Não pode ser reavido, não da mesma forma como foi entregue. Ele deu a própria vida! Esse é o amor de que Jesus fala. Não um sentimento, capaz de fazer bater mais forte nosso coração, suar nossas mãos ou nos levar às alturas. Mas uma decisão difícil, dura, que é capaz de nos levar à sepultura.

Você ama? O próximo?

Vamos agora para a segunda etapa dessa pequena ordem de Jesus: o próximo! Havia um homem muito bondoso, justo e fiel. Ele era dedicado à luta pelos fracos, as minorias. Ajudava em diversas iniciativas, sempre presente em manifestações populares, dedicado a ensinar a igualdade e fraternidade entre os homens. Esse homem, em uma viagem para conhecer comunidades carentes na África, se deparou com um jovem que fora assaltado e espancado. Tentou buscar ajuda com outras pessoas, mas ninguém se importava com o desconhecido. Não havia hospital público em que pudesse levá-lo e o aconselharam a chamar as autoridades e deixa-lo só. Ele desconfiava que se deixasse, o desconhecido morreria, pois sabia como era carente aquela região. Ele estava de posse de uma considerável quantia em dinheiro que iria usar para ajudar uma comunidade carente daquela cidade a ter o mínimo de condições de higiene e saúde. Pensou que poderia usar o dinheiro para buscar ajuda e interná-lo em um hospital particular, mas vacilou, pois ao salvá-lo poderia deixar de beneficiar muitos outros. Salvar o homem seria uma tarefa solitária, que não teria grande impacto social e certamente não mudaria o mundo. O que fazer?

Sem medo de errar, Jesus salvaria o desconhecido. Como posso afirmar isso? Pelo simples fato de que foi isso que ele fez! Jesus, com toda sua força, poder e liderança poderia ter feito coisas extraordinárias pela humanidade durante os poucos anos que passou no mundo. Pensem bem, as mulheres eram tratadas como lixo, a escravidão era normal, era comum o sacrifício humano em cultos, um governante tinha o direito de mandar matar todos os bebês de sua cidade, sem que nada lhe acontecesse. Jesus tinha condições de mudar tudo isso. De lutar pelos fracos, de ajudar os necessitados, de libertar os cativos e mudar os rumos daquela sociedade. Mas não o fez! O que Jesus fez foi mudar a história de indivíduos. Ele acudiu quando o fraco, o necessitado e o cativo tornaram-se um “próximo”. Ele o fez quando teve condição de olhar nos olhos deles, amá-los e mudar a história de cada um. Ele não libertou o cativo como parte de um grupo, de uma minoria; não restabeleceu a justiça social. Ele libertou a adúltera que seria apedrejada em sua frente, o cego que o interpelou pelo caminho, a mulher à margem da sociedade por causa de um fluxo de sangue que tocou em suas vestes, o cego que gritou em seu socorro... Ele não lutou pelas minorias, ele lutou por pessoas; ele não amou as minorias, ele amou os que cruzaram seu caminho; ele não libertou o escravo de seu amo, ele libertou o escravo de si mesmo. Ele amou os discípulos, serviu aqueles que andavam com ele, comiam com ele, dormiam com ele; e os amou até o fim, mesmo em meio a muitas falhas.

Você ama o próximo como a ti mesmo?

Por que Jesus falou para amarmos o próximo como a nós mesmo? A resposta é simples: porque se amarmos alguém como nos amamos ele não será mais um na multidão. Não será uma causa a ser defendida, uma classe de pessoas a ser auxiliada. Afinal, quando se trata de amor não queremos ser mais um na multidão. Queremos alguém que nos ouça, que olhe em nossos olhos, que valorize nossos problemas, que esteja conosco nas nossas necessidades, lutas e fraquezas. Dizer eu amo os pobres da África, eu amo as crianças ou eu amo os injustiçados é pura balela. Você não ama nada! Você pode ter dó, piedade, misericórdia ou algo assim. Amor não. Veja bem, não estou afirmando que não devemos lutar contra as desigualdades sociais, em favor do oprimido. Estou dizendo que lutar pelos oprimidos não é amar o próximo. Se você luta pelos oprimidos, parabéns! Continue em sua labuta e desejo-lhe vitória em todas as suas batalhas. Mas se você não ama o próximo, não está cumprindo o mandamento de Jesus. Um não substitui o outro. Jesus não lutou pelas classes oprimidas de seu tempo, mas amou intensamente todos que cruzaram seu caminho. Militar pode ajudar a melhorar a sociedade, se obtivermos sucesso, amar certamente muda a nós mesmos e a quem amamos, e sempre se obtém sucesso. Talvez não o sucesso pomposo que se obtém ao ser um líder social que logra êxito em seus projetos...

É certo que, se todos amassem o próximo não seria necessário luta social... Isso é possível?

Eu acho o seguinte: nunca alcancemos uma sociedade em que todos amem o próximo. Entretanto, aos que se dizem seguidores de Jesus, amar o próximo é obrigatório. Boa sorte!


sexta-feira, 14 de maio de 2010

Sobre Deus

Os seres humanos especulam a respeito de Deus há alguns milhares de anos. Eu, por ser também um humano, não me furtarei a fazer a mesma coisa. Entretanto, distante do dogmatismo típico de alguns setores religiosos, quero deixar claro que minha posição não passa de especulação, dessas assim feitas na mesa do bar, no ônibus ou sentado no vaso sanitário. Este pensamento me ocorreu enquanto navegava pela internet. A parte que fala sobre Kafka me ocorreu um pouco antes, durante uma palestra sobre o mesmo escritor, proferida pelo filósofo Benedito Nunes.

Me lembro bem que há algumas horas atrás eu frequentava um fórum de discussão virtual, no qual o assunto era a homossexualidade dentro da igreja cristã. Ou melhor, a aceitação da homossexualidade pela igreja cristã. Em outro fórum outras pessoas discutiam a respeito de interpretações do texto bíblico. Aparentemente, todos os usuários da internet possuem convicções autênticas diretamente reveladas por Deus. Alguns até fazem dEle as suas palavras, dizendo: “Deus não se agrada disso, Deus não se agrada daquilo”. Tais pessoas têm muita sorte por Deus não processá-las por uso indevido de imagem, difamação, ou simplesmente mandar chuva lá de cima até que todo mundo morra afogado.

Minha especulação sobre Deus não tem pretensões tão altas. Aparentemente não faço a menor ideia do que se passa pela cabeça dEle. E talvez não faça sequer ideia do que se passa pela minha própria cabeça.

Prossigamos.

Minha especulação diz respeito ao modo como Deus se relaciona com os seres humanos. Se a bíblia estiver certa, sabemos que Ele trava esse relacionamento através do Espírito Santo. O que não significa que sabemos de alguma coisa. Outros, mais ortodoxos e amantes da palavra escrita, confiarão à bíblia a tarefa de orientar os seres humanos, conjuntamente com o Espírito. Eu eliminaria a bíblia desta história, ou melhor, não a eliminaria, mas reduziria o seu papel, que me parece estar supervalorizado. A bíblia, sem o Espírito, não serve para muita coisa. São só palavras, e os livros não transformam ninguém.

Então temos o Espírito, além de uma primeira orientação do seu trabalho: se Ele atua através da bíblia, então o Espírito age em uma perspectiva intelectual. Não creio ser essa uma conclusão satisfatória. As operações intelectuais não transformam de todo as pessoas, é preciso de algo mais. De boas intenções o inferno está cheio. Existem muitos que compreendem a mensagem do amor, mas que não a colocam em prática. O Espírito precisa de uma segunda orientação para seu trabalho: a perspectiva da ação. O conhecimento intelectual e o conhecimento prático do evangelho são duas camadas que se sobrepõe mutuamente, se interpenetram.

Entretanto, o prisma intelectual é um engano. Muitos são os meios pelos quais os seres humanos “aprendem” a serem “bons”. Os instrumentos morais que a sociedade inventa, as leis, as instituições, tudo isso é prova de que o lado intelectual da coisa não funciona. É pura dissimulação. O homem impregnado de uma retórica que o protege da verdadeira finalidade: a prática. A receita do bolo sem que ninguém tenha a disposição para fazê-lo.

Definitivamente, minha especulação não compactua com a ideia de que Deus se relacione com os seres humanos através da intelectualidade. Intelectualidade no sentido de apreensão cultural, de utilização da linguagem. Exterminem os programas de teleproselitistas, mas Deus continuará agindo em nosso meio. Cortem as línguas de todos os cristãos, mas Deus continuará agindo em nosso meio. Queimem todas as bíblias, todos os livros que falem sobre o amor e coisas boas, e Ele continuará dando as caras.

Minha especulação, caro leitor, supõe que Deus não se relacione com os seres humanos através de linguagem. Não podemos compreendê-lo e apreendê-lo intelectualmente, racionalizá-lo, esquematizá-lo, nem em um ciência positivista e tampouco em uma ciência relativista e pós-moderna. Não existe ciência de Deus, no sentido de conhecimento sobre. Toda teologia é sobre homens, e não sobre deuses.

Não quero limitá-lo a acreditar que Deus é incapaz de relacionar-se conosco através de nosso intelecto. Até porque tudo em nós é intelecto. O que quero dizer é que este relacionamento é de outra ordem. Que chamem de absurdo, de inexprimível, indizível, mas palavra alguma poderá revelar Deus aos humanos. Nem palavras, nem qualquer outro tipo de linguagem. Ele é radicalmente distinto. Ele é Espírito, e como tal, age em nosso espírito, fomentando mudanças práticas e atitudes (como se pode constatar nas histórias dos evangelhos) e não mudanças intelectuais. Não é o crer, mas o fazer crendo.

Não sei até que ponto a crença é importante para o relacionamento com Deus, isso tudo permanece obscuro e faz doer meu cérebro ao tentar compreender. Como eu disse, minha especulação é justamente a da incompreensão do relacionamento com o divino.

Mas lembre-se: é apenas uma especulação.



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Existe um conto de Franz Kafka que é bastante conhecido, chamado Metamorfose, que já faz parte do cânone da literatura mundial. Nele, Gregor Samsa acorda metamorfoseado em um inseto, sem qualquer explicação aparente. Sua família, é claro, sente-se extremamente surpreendida com o fato. No desenrolar dos acontecimentos, Gregor Samsa vai gradativamente perdendo todos os laços afetivos com a família, até que esta não reconheça no inseto o filho que havia antes. Gregor acaba morto, varrido por uma empregada.

Há ainda outro conto de Kafka, um pouco menos famoso que o anterior, chamado Relatório para uma academia, no qual um macaco conta sua história desde o momento em que foi capturado na floresta até o momento em que escreve o tal relatório, contando todo o processo gradativo no qual se ajusta à sociedade humana, adquirindo diversos conhecimentos que o fazem um exemplar raro, híbrido entre animal selvagem e humano culto.

Em Metamorfose o que está sublinhado, pelo menos para mim, é o processo de desumanização de Gregor Samsa, até o momento em que ali já não existe um membro da família, mas somente um inseto. O tempo todo, porém, Gregor está consciente de sua situação de inseto. Seu intelecto ainda é humano. Para a família, porém, aos poucos Gregor perde a capacidade de se comunicar: sua voz transforma-se apenas em zumbidos animalescos, seus gestos corporais são apenas movimentos de inseto. Não há ponte que possa fazer a ligação entre ele e os demais seres humanos. Não existe linguagem capaz de fazer esta ponte.

Em Relatório para uma academia o que está sublinhado (repito: pelo menos para mim), é o processo de humanização do macaco. Sua lenta e gradual aquisição da linguagem humana, em uma luta travada tanto pelo macaco quanto pelos humanos que lhe serviram de mestres. Aquisição da linguagem verbal, gestual, escrita, comportamental. O macaco aprende a se comportar tal qual um humano, sem ignorar sua natureza de macaco. O que o faz dar este salto qualitativo, de macaco a humano, é a necessidade de uma saída. Uma saída que o desobrigasse das prisões destinadas aos animais, e o permitisse as “liberdades” destinadas aos homens. Este salto qualitativo, é claro, é o domínio da linguagem. A linguagem serve de ponte para que o macaco se humanize e se relacione com seus “semelhantes” a partir de então.

A linguagem não está no homem, mas o homem é que está na linguagem. A linguagem o domina, o utiliza. Gregor está inviabilizado para tal uso. Portanto, aos poucos deixa de ser reconhecido como humano, até que finalmente sua família o tem por completamente desumanizado. Apenas um inseto inconveniente e asqueroso. Já o macaco, através de um esforço enorme, salta da linguagem de primata para a complexa linguagem dos humanos.

Partindo disso, quero voltar para minha especulação a respeito de Deus.

A linguagem – principalmente nossas linguagens idiomáticas, que permitem a racionalização do conhecimento – é responsável pela quebra do relacionamento entre Deus e os homens. O momento em que tentamos compreendê-Lo é o mesmo momento em que Ele nos escapa. Quando tentamos transubstanciá-lo em versículos, liturgias ou preleções estamos apenas criando cultura. Estamos humanizando algo que é da ordem do divino, intelectualizando algo que é da ordem do espírito. Criando somente códigos simbólicos que não possuem valor algum, além do valor cultural/intelectual.

Uma vida cristã autêntica, segundo minha especulação, deve percorrer o caminho inverso daquele ensinado pela igreja, pela escola, pelas instituições. Não se parte de um conhecimento socialmente construído para uma vivência pautada nesse conhecimento. Não se aprende o bem para praticá-lo. Não. A vida cristã é de uma direção inversa. Deveremos ignorar, sempre que necessário, todo o conhecimento culturalmente adquirido, e partir para uma vivência pautada no relacionamento direto com Deus, sem mediações, através da própria imanência do Espírito em nós. Nossas ações guiadas através de Deus, tudo na ordem do indizível, inexprimível absurdo. Partindo desta vivência de mundo, iluminada pela divindade, é que construiríamos um repertório intelectual.

Em suma, não agir segundo a moral dura, repressiva e burra ensinada pela sociedade. Essa moral que é criada apenas para manter o funcionamento de todo um sistema de valores econômicos, políticos, religiosos, culturais etc. Não devemos agir segundo essa moral, que nos é imposta da sociedade e internalizada. Deveremos, sim, agir conforme a ética que surgirá do relacionamento entre os seres humanos. Ética que deve nascer do amor. Já não se trata de tratar o mendigo, o empresário ou o sacerdote conforme a moral, a etiqueta, o código cultural ensina. Mas sim de agir individualmente, conforme a ética criada na relação entre os indivíduos, pautando-se no amor para construir relações verdadeiras e afirmativas da potência da vida.



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É claro que esta é uma situação idealizada. Para que ela acontecesse, seria necessário que já nascêssemos conscientes de nosso relacionamento com Deus. O que não deixa de ser uma hipótese interessante: será que já não é inerente a todo ser humano tal relacionamento? Não com o Deus quadrado e restrito do cristianismo, mas com a noção geral de Deus, de força cósmica, de prática do bem e do amor.

O que também me agrada nesta especulação é a aniquilação do relacionamento com Deus mediado pelo conhecimento. Nunca simpatizei com um Deus erudito. Se o relacionamento não é racionalmente compreensível, então não se torna restrito para as pessoas com deficiências cognitivas e intelectuais. Quem disse que os autistas não se relacionam com Deus e vice-versa? Bem, sabemos que quem disse isso foi a própria Igreja...

Afinal, prosseguindo com o exemplo do autista, tal indivíduo pode não possuir a capacidade intelectual de compreender os dados do evangelho racionalmente. Ele não poderá pronunciar as palavras mágicas, não confessará Jesus como único senhor e salvador de sua vida. Está excluído, portanto, do povo remido pelo sangue, num fantástico golpe de marketing da teologia cristã em geral, centralizando o amor de Deus nas mãos dos detentores do código cultural. Mas pergunte a mãe de um autista do mais alto grau se ele é capaz de amar, e vejamos o que ela responderia. O amor não conhece as fronteiras da linguagem ou do intelecto, afinal ele é afirmação da vida, e a vida é imanente a todos os seres humanos (mesmo aqueles de comportamento condicionado pela moral social vigente, como eu). O relacionamento com Deus ultrapassa a necessidade da crença, da confissão da fé cristã. Entretanto, talvez não ultrapasse a necessidade da atitude, da prática cristã.

O problema todo começa quando passamos ao relacionamento propriamente dito. Sem receita de bolo nós, seres humanos, nos sentimos desamparados. A imanência direta de Deus nas nossas ações, a chamada prática do amor (seja ele cristão ou ateísta), requer um outro tipo de salto qualitativo, diferente daquele dado pelo macaco em direção à linguagem. É o salto em direção ao absurdo de Kierkegaard. O passo em direção a atitudes autênticas, não programadas racionalmente, atitudes de afirmação da vida (principalmente afirmação da vida do outro).

Viver este relacionamento é a parte mais fácil e mais difícil. Fácil porque, como eu e minhas especulações malucas diríamos, é bem razoável que a relação com Deus seja inerente ao ser humano. Essa capacidade de amar que todo mundo parece ter, nem que seja a de amar unicamente a própria vida. E difícil porque, para manter tal relacionamento, seria necessário que nós nos despíssemos aos poucos das mediações culturais e intelectuais que fazemos a todo o momento. Seria preciso respirar por um momento fora da cultura, ignorá-la. Esquecer da bíblia, dos evangelistas, dos poetas, dos hereges, dos amores, e deixar que somente a voz de Deus se sobressaia. A voz de Deus, obviamente, não é compreensível ao nível da linguagem, mas somente ao nível do corpo em ato, da prática, do fazer. Não é apropriado dizer “voz de Deus”, mas talvez seja mais como um comando, um impulso exercido sobre nós, por livre e espontânea vontade nossa. A permissividade do servo ao seu senhor. Assim como a permissividade do senhor em se revelar íntimo ao seu servo.

Vale dizer que não vejo este relacionamento com Deus como uma colocação mística, um transe espiritual. Espiritual sim, mas nem sempre um transe. O relacionamento com Deus é aquilo que nos coloca em experimentação direta com nosso próprio cotidiano; não pela ótica dos comportamentos determinados pela cultura e convenções sociais, mas sim pela ótica dos comportamentos autênticos, criativos e possibilitados pelo amor. Relacionar-se com Deus é relacionar-se com o mundo, com o outro e consigo próprio.

Espero não ter pronunciado nenhuma blasfêmia.

Saliento mais uma vez que isso tudo é apenas uma especulação. Como não sou nada espiritual, fico exercitando meu intelecto na tentativa de aprisionar Deus em algumas folhas de papel. Apesar de que nunca funciona.

Eu passarei. Eles passarão. Deus passarinha.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Igrejas são reality shows

O fato de um sujeito como eu assumir que possui o hábito de assistir Big Brother Brasil 10 é constrangedor, mas terei que fazê-lo para dar início a este texto. Admito que BBB 10 seja fútil, medíocre, entretenimento barato, apelação gritante. E é por isso que eu gosto tanto de assisti-lo. Nem tanto por aquelas bundas maravilhosas de fio dental, mas sim porque me divirto de forma sensacional vendo um grupo de pessoas mostrando aquilo que de mais perverso (e ao mesmo tempo mais típico) pode existir no ser humano: o egoísmo.

E é por isso que afirmo, neste texto e para fins didáticos, que as igrejas são reality shows como o BBB. Igrejas talvez sejam o antro mais antigo do egoísmo que perdura na superfície da Terra. Onde houver religião, haverá seres humanos egoístas. A religião está diretamente vinculada ao princípio da punição e recompensa (mesmo que na além vida), e é por isso que se vincula ao egoísmo: no fundo, o que todos querem é salvar a própria pele. É evidente que Jesus propõe uma lógica radicalmente distinta (a graça como favor imerecido dado por Deus, ao mesmo tempo que institui a exigente lei do amor), mas não vamos entrar em detalhes.

Quando vejo um programa como o BBB, é óbvio que não estou vendo pessoas, mas personagens. Personagens calcados em pessoas, mas editados, cortados, manipulados, transformados em imagem, subvertidos, expandidos, recalcados e maquiados. Mas nem por isso a existência dentro da casa deixa de ser real e torna-se uma atuação. Não existe atuação no sentido de predeterminação de um roteiro. As coisas simplesmente vão acontecendo, de acordo com os caminhos trilhados pelos personagens reais. E é neste ponto que o egoísmo entra em cena: o BBB pressupõe um vencedor, dado seu caráter de jogo. Todos ali buscam uma recompensa, mas ao mesmo tempo precisam forçosamente esquecer que fazem parte de um jogo. Ou melhor, aparentar este esquecimento e assumir um “jogar com o coração”, já que a permanência dos mesmos no jogo só existe na medida em que são aceitos pelo público. Ou seja, na medida em que seus personagens tornam-se convincentes, e são recompensados pelo público com mais uma semana de permanência naquela boa vida.

As igrejas seguem uma lógica aproximada. Os personagens estão ali, e assim como os do BBB, estes também constroem sua cena, sua narrativa, partindo da imprevisibilidade das situações reais. Cada jogador, também chamado de irmão (à semelhança de brother), busca sua(s) recompensa(s): desde a vida eterna até desejos mesquinhos como o reconhecimento passageiro. No BBB a lógica do jogo requer que os irmãos sejam eliminados um a um. Na igreja a lógica do jogo pressupõe que novos brotheres sejam convertidos, gerando prestígio para a casa que mais frutifica. No BBB, os personagens disputam sua recompensa tendo que simular a ausência desta disputa: não podem deixar seu egoísmo transparecer, sob o risco da punição dos olhares vigilantes uns dos outros, e também dos olhares do público. Na igreja, os personagens buscam cada qual sua própria recompensa, tendo que simular igualmente a ausência desta disputa, e ainda cometer hipocrisia maior: fingir que estão destituídos de qualquer egoísmo e que estão movidos pelo amor a Deus e ao próximo. E não deixam transparecer seu egoísmo com ainda maior afinco: é preciso que seus personagens, além de serem convincentes uns aos outros, convençam igualmente a si próprios, já que o reconhecimento do próprio egoísmo poderia colocar tudo a perder.

Nisto, os brotheres só não convencem a Deus, que tudo vê, mesmo aquilo que está em secreto. Resta saber se Deus está ainda disposto a recompensá-los no decorrer ou ao final do programa (já que seu favor é imerecido), mesmo sabendo que a exigente lei do amor foi substituída pela onipresente lei do egoísmo.

***

Eis que me ocorre que, apesar de me sentir liberto da vigilância da igreja, olho para minha própria existência e comprovo, com pesar, que no fundo nunca deixei de ser apenas um personagem. O reality show expandiu seus limites: das paredes do templo para as fronteiras da vida. Sela lá onde estiver, percebo que continuarei simulando um personagem, buscando minha(s) recompensa(s), convicto das minhas próprias boas intenções, ocultando todo e qualquer resquício do meu egoísmo.

Descubro, talvez tarde demais para um recomeço, que não eram as câmeras que moldavam meu egoísmo, mas sim meu egoísmo que instalava câmeras para que o tempo todo eu mesmo (ou meu personagem) estivesse sob os holofotes.

Percebo, talvez até com maior atraso, que ser cristão é de fato uma opção bastante inglória: ao invés de amarmos uns aos outros até o ponto de oferecermos nossa própria vida pelo próximo, o máximo que nosso egoísmo permite é que ofereçamos – num movimento contínuo – a morte de Cristo pela vida daqueles que nós deveríamos amar. E Cristo, como ovelha muda, continua morrendo dia após dia.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

No amor não existe medo (por Assir Pereira)

Nosso tempo é marcado pela insegurança e pela incerteza. A violência nos é apresentada, a cada dia, com novos coloridos e contornos. É a violência nas ruas, nos lares e nos estádios. Sofremos, a cada minuto, agressões de todos os tipos e naturezas. Agressões físicas, morais, espirituais.
Somos agredidos na nossa liberdade. Nossa intimidade é invadida e vasculhada pela televisão agressora. A unidade da família é ameaçada pela sociedade capitalista que nos leva ao consumismo, obrigando cada membro da família a auxiliar na busca do sustento e da sobrevivência. A distribuição injusta das riquezas, com poucos tendo muito e muitos não tendo nada, violenta a dignidade do mais pobre, que se vê só, abandonado e sem proteção. A criança, mesmo tendo recebido um “ano internacional” só para ela, continua ainda sua via crucis. Ela é agredida na sua formação. A delinquência juvenil cresce. As crianças abandonadas se multiplicam. Febem, Cetrem, albergues e abrigos não comportam a demanda dos que deles dependem. Os que são recebidos por esses órgãos são tratados com descaso e desamor.
A criminalidade e a marginalidade crescem assustadoramente. Uma em cada dez pessoas sofre algum tipo de violência diariamente em São Paulo. A natureza é violentada e na guerra ecológica está sempre no vermelho.
O trânsito mata. O trombadinha mata. A poluição mata. A falta de segurança no trabalho mata. Por uma palavra a mais ou a menos o homem, nesta conturbada cidade, mata. A imprensa e muitas vezes até o púlpito ensina: “Desconfie de todos”.
Esta é a civilização do medo. Ninguém está seguro. O futuro parece sombrio e incógnito. Sofremos uma crise de amor. Vivemos uma inflação de auto-amor. O amor que deveria ser dado ao próximo tem sido desviado para alimentar nosso egoísmo. Temos nos esquecido de que esse é um amor roubado. Na ordem natural de Deus, esse amor deveria ser dado ao outro.
Nosso culto por causa dessa ótica distorcida tem caído apenas na verticalidade. Vou ao templo para adorar a Deus. Minha adoração tem sido solitária, e não solidária. Temos nos esquecido de trazer a comunidade inteira à luz de Deus.
A verdadeira adoração ao Senhor é aquela que não exclui o meu irmão. Não existe amor a Deus sem amor ao outro, ao pobre, ao abandonado, ao nu, ao rico, ao branco, ao negro.
Só este culto restaurará o homem. Só este amor criará o novo homem e a nova humanidade. Para João, só neste amor ficarei livre do medo (I João 4:18a).

Fonte: PEREIRA, Assir. Homem, onde estás?: igreja aqui e agora. São Paulo: WVC, 2000. pp. 39-40).

Não sei quem é Assir Pereira, mas concordo com o que ele disse.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009





Em meio a uma série de denúncias de intolerância religiosa, a Praia de Copacabana servirá de altar para um casamento entre uma umbandista e um evangélico num culto ecumênico unindo características das duas religiões.

O evento vai acontecer no dia 29 de dezembro, que foi oficializado pela prefeitura como a data da comemoração antecipada de Yemanjá. É que embora a oficial seja 2 de Fevereiro, no Rio tradicionalmente era reverenciada na noite de 31 de dezembro, prática que foi diminuindo com o crescimento da festa de Réveillon na orla carioca.


“Será o primeiro realizado na praia com uma união inter-religiosa. O casamento vai ser antecipado com uma carreata que parte do Mercadão de Madureira no meio da tarde percorrendo vários bairros até Copacabana. Esse é o sétimo ano que a festa de Yemanjá é realizada no dia 29″ – revela Sheila Reis – integrante do departamento de Marketing do Mercadão que está comemorando 50 anos de fundação.


Fonte: RSZD [via PAVABLOG e ADIBERJ]

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Quem fala através da igreja evangélica?

Me perguntei, e ainda me pergunto, se posso chamar a pluralidade de denominações, culturas, doutrinas que encontramos no Brasil de algo como “igreja evangélica”, que representaria um todo. Não, essa unidade não existe, está claro. Mas digamos que com “igreja evangélica” eu queira me referir a um sistema, uma grande produção e manutenção de discursos acerca da(s) igreja(s) evangélica(s). Estes discursos dizem respeito à verdade – no sentido de Foucault – que orienta, reprime, molda, ajusta os comportamentos e doutrinas evangélicas. Não há unidade e nem coincidência de pensamentos, é óbvio, há o embate, a exclusão, o choque de pensamentos diferentes, e é justamente isso que constitui este grande discurso, de um possível grande sistema da “igreja evangélica”.




Quem é que produz esta verdade? Quem fala através da igreja evangélica?


Estas questões talvez sejam insolúveis mesmo. Mas tudo fica mais fácil se começarmos a pensar não “quem”, mas “como” essa verdade é produzida e mantida, e o “por quê”.


A “verdade” existe para controlar, é ideológica. Serve para a manutenção de um poder. Na verdade de vários poderes, em maior ou menor grau. Poder que é exercido por todos, ou pelo menos por muitos. Exerce esse poder, proporcionado pelo estabelecimento da “verdade”, tanto o pastor, o reverendo, o sacerdote, quanto o leigo que apenas ouve e assimila estes discursos: ao reproduzi-los o leigo torna-se também portador de uma verdade espiritual, portanto diferenciado dos demais seres humanos não-espirituais.


A verdade estabelecida pelo sistema “igreja evangélica” serve para legitimar a hierarquia simbólica entre pessoas: uns mais espirituais, em maior comunhão divina, mais santidade do que outros. Essa verdade é mantida através de comportamentos: as roupas e o isolamento dos crentes (há algumas décadas), a indústria cultural gospel (hoje em dia). A diferenciação é necessária, e ela precisa ser explicitada através do comportamento, para que a verdade possa ser efetivamente bem sucedida na manutenção dos poderes espirituais conferidos diretamente por Deus aos líderes espirituais da humanidade.


Além de masturbar os egos (daqueles que se deixam iludir por um cristianismo das aparências sociais), a verdade também possui um viés econômico-político. Ela é útil porque faz a máquina funcionar, e por isso ela também é mantida. Além disso, é flexível e mutável, porque necessita sempre se ajustar ao sistema capitalista tardio que vivemos. Sem um retorno econômico-político, a verdade deixa de ser interessante, e é substituída por outra mais rentável. É por isso que as doutrinas da igreja – à semelhança de Cristo – nascem, crescem, morrem e são ressuscitadas, assentadas à direita de Deus Pai, para serem novamente descartadas e substituídas. Quem se beneficia da manutenção da verdade pela “igreja evangélica”? Muitos, e não somente líderes religiosos, mas também pessoas que nem sequer possuem vínculo com a igreja (mas possuem vínculo com quem lidera a igreja). Não são poucos os políticos não-evangélicos que são apoiados pela igreja evangélica, por associação ou afinidade com as lideranças religiosas. Claro, tudo feito em nome de Jesus e para a glória do Senhor.


A verdade gera mercado, gera cantores que cantam a verdade, músicos que tocam a verdade, poetas que declamam a verdade, apresentadores de tv que apresentam a verdade, grifes de roupa que vestem a verdade e por aí vai. A verdade é produzida e circula, nas rádios, nas televisões, nos púlpitos, nas estampas de camisetas, nos blogs, no comportamento das pessoas. Ela circula para se manter, sobrevive enquanto puder circular, e se modifica para não se tornar obsoleta.


O mais importante, e talvez mais controverso, ponto de referência da produção desse discurso – do sistema “igreja evangélica” – é a Bíblia, até mais do que o próprio Jesus Cristo. Mais do que a própria Palavra Viva, do que o próprio Verbo, porque a Bíblia é um registro, um documento, é estática, estanque, palavra que mata, espírito que vivifica. Ela pode ser torcida, tingida ideologicamente, manipulada, tudo com o respaldo divino, já que está tudo impresso, tinta no papel, palavras que o vento não leva. Ela é a base padrão, à qual sempre se recorre quando se quer produzir e manter um discurso oficial, verdadeiro, da igreja.


Quem produz essa verdade? Como a produz? Por que a produz? Como a mantém?


Perguntas complexas e respostas inatingíveis.


Mas existe outra verdade, aquela que é também o caminho e a vida; a verdade que verdadeiramente liberta; que não pode ser ensinada, mas deve ser vivida; verdade que não constitui poder e autoridade, senão a autoridade de tomar sua cruz e o poder de renunciar a própria vida; verdade que não serve para dominar, mas para romper grilhões. Essa verdade é Jesus Cristo, e creio que não é ele quem fala através da igreja evangélica.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Pedras ou tijolos?


Quando se constrói uma casa hoje em dia, qual o material básico para levantar as paredes? Certamente são os tijolos. Tijolos são feitos em larga escala, obedecendo uma padronização de tamanho que facilita a construção e a torna mais rápida e eficiente. Imagine se você fosse incumbido de construir uma casa de pedras. Inicialmente deveria procurá-las, pois não são fabricadas. Depois de juntá-las seria necessário estudar onde encaixar cada uma, pois são de tamanhos e formatos diferentes e quando melhor encaixadas menos massa entre elas. Seria penoso carregar pedras grandes, trabalhoso usar as pequenas para tapar frestas; é uma obra realmente demorada!!! Muito mais rápido e prático construir com tijolos, não?

Pedro fala um pouco sobre a edificação da igreja comparando com a construção de uma casa. Fica claro a matéria-prima que o Pai usa em sua construção: pedras vivas. Os grandes empreiteiros da fé, na pressa de construir “suas igrejas” aprenderam que se constrói mais rápido com tijolos, em uma cultura onde todos pensam iguais e são treinados a terem o mesmo formato, o mesmo pensamento. Lançam métodos revolucionários de crescimento, transformam pedras em tijolos e rapidamente levantam as paredes e terminam sua obra. Se algum tijolo quebrar não tem problema; existem milhares de outros do mesmo tamanho saindo da fornada é só trocar. E olha que a troca é constante...

Mas o Pai é um Deus de diversidade! Ele fez cada um com uma característica e como pedras vivas a casa de Deus desfruta de uma diversidade santa, amável, respeitosa e principalmente em total submissão ao Pai. Cada pedra tem seu formato, seu talento e edifica todo o Corpo à medida que cresce no conhecimento de Deus e renuncia seu ego, deixando o pecado e se unindo a Cristo e a Igreja. Trabalhar com pedras é mais demorado, machuca as mãos, mas à medida que o próprio Deus, pela atuação de seu Espírito e pela edificação do próprio Corpo as une, então se estabelece a Igreja de Jesus.

Na construção com tijolos, após passar massa e pintar, cada tijolo some, não é mais visível, agora faz parte de uma organizada parede. Não tem mais como expressar o seu sacerdócio único, expressa apenas a idéia de seu construtor. Na construção de pedras cada uma tem o seu local, sua importância e apesar de fazer parte de uma grande e sólida parede continua ali, manifestando seu sacerdócio de forma única. Ao se rasgar o véu, todos fomos feitos sacerdotes do Deus vivo e pedras na construção da igreja de Jesus, sua noiva. Não se deixe enganar pelas aparências, pelas facilidades e pela velocidade; Igreja só de pedras.

"Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo." IPd.2:4
Visite o blog Filho Imperfeito: http://filhoimperfeito.blogspot.com/

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

É possível?




Um dos anseios de toda uma geração (ou gerações) de cristãos descontentes com a igreja-instituição tem sido o de retorno ao cristianismo primitivo. É preciso perguntar se esta é uma atitude possível, e é óbvio que não tenho resposta alguma. Nem pretendo ter, ou elaborar qualquer tipo de fórmula mágica aqui neste texto. Só pretendo questionar certos aspectos desse anseio por um retorno ao cristianismo primitivo.


1) Existiu um cristianismo primitivo? Ou esta é apenas uma teorização que fizemos, criando um estágio ideal para a Igreja? Quando digo “fizemos”, não me refiro somente a nós, mas aos próprios apóstolos e escritores dos evangelhos, que podem muito bem ter idealizado aquele tipo de cristianismo na própria imagem que faziam de si, sem que ela fosse necessariamente “verdadeira”. Mas suponhamos – e eu realmente creio nisso – que o cristianismo dos dois primeiros séculos, aquele que era perseguido, comunal, fraterno, flexível e guiado pelo Espírito Santo realmente existiu, com acertos e falhas, claro, mas que prova que em determinado contexto foi possível a concretização desta forma de cristianismo. Então poderemos passar a uma segunda pergunta.


2) É possível retornar a algo do qual não viemos? Pergunto isto porque, em tese, a igreja-instituição, com os seus mecanismos de poder e seus ajustes a modelos econômicos, existe praticamente desde Constantino, lá no começo do mundo. Mesmo o mais velho dentre todos os cristãos vivos no planeta provavelmente nunca experimentou o cristianismo primitivo (talvez muitos tenham experimentado coisas semelhantes, mas isto é outro caso). Se nunca fomos “cristãos primitivos”, como poderemos retornar a este estado? Saberemos realmente que chegamos a um modelo satisfatório de cristianismo?


3) Se não sabemos exatamente para o quê estamos retornando, é possível que nosso destino não seja o previsto? O que quero dizer com este questionamento é que talvez nós acabemos “retornando” para um outro modelo qualquer, que não seja necessariamente o cristianismo primitivo. Nesse percurso, podemos chegar a um destino tão satisfatório quanto o desejado, ou então chegar a um destino tão insatisfatório quanto o ponto de partida (a igreja-instituição). Talvez, em nossa busca por algo que sequer conhecemos, simplesmente se modifique a estrutura, mas continue se mantendo uma igreja dogmática, intransigente, individualista e rígida. Um exemplo claro é a própria reforma protestante, que todos conhecemos muito bem em suas falhas (mas também em seus acertos).


4) É possível retornar, pura e simplesmente? Já que praticamente tudo (talvez somente Deus permaneça o mesmo) é diferente entre a época de Cristo e a nossa – é outra cultura, outro lugar, outros homens, outra imagem que temos de Cristo, outras tecnologias, outro sistema econômico, outro planeta (na verdade o mesmo planeta, mas alterado em suas características) etc. Então como supor um retorno? Não é mais simples supor um avanço (não necessariamente melhor, mas um avanço para algo novo)? Creio que, para retornar ao espírito do cristianismo primitivo, primeiro temos que lidar com nosso próprio meio.


5) Uma última pergunta (tentei fazer sete questionamentos, para evocar uma espiritualidade neopentecostal, mas não consegui!): é necessário que o cristianismo atual (igreja-instituição) morra, para surgir um cristianismo novo (mais próximo do modelo Jesus Cristo)? Quando leio o novo testamento, não me parece que o cristianismo primitivo tenha sufocado o judaísmo, muito menos que o tenha matado. Me parece sim, que o ensinamento de Cristo subvertia toda religiosidade judaica, criando nos próprios judeus uma nova dimensão de vida, uma nova forma de pensar. Talvez quando pararmos de propor um retorno, e de fato experimentarmos o ensinamento de Cristo na prática, toda religiosidade cristã será subvertida, e a igreja-instituição vai perder a importância, assim como o judaísmo deixou de estar em primeiro plano na vida dos judeus convertidos naquela igreja primitiva (tanto é que eles abandonaram de vez o ranço separatista de povo escolhido, misturando-se aos gentios, pagãos etc. Mas isto pode ser somente consequência do imperialismo romano)...




Deixo agora de fazer questionamentos ou opiniões, e tomo a ousadia de partir para uma afirmação poética (sem qualquer fundamento ou valor, é bom que fique claro!):


A instituição não é o inimigo. A instituição é como uma pele velha, que já não se ajusta ao corpo da cobra, e por isso vai sendo abandonada gradualmente, repelida pelo animal. O processo pode ser demorado e dolorido, mas é necessário que se faça a troca, para que o animal sobreviva. Mais tarde, esta pele que agora é nova também vai tornar-se velha e obsoleta. Mas por enquanto é o melhor que temos, e não podemos deixar de usá-la, nem deixar de lutar e sofrer por ela.



Minha oração



Pai, me livra do desejo usar sua igreja para suprir minhas carências
Livra-me Pai de querer ser alguém, de relacionar com base em minhas necessidades
Livra-me da síndrome das multidões, de querer juntas pessoas sem me importar com elas
Pai, livra-me do desejo de manipular massas, de ser o centro das atenções
E acima de tudo Pai, livra-me da arrogância de pensar que eu faço a sua obra.

Que sua vida em mim me inspire a viver como Jesus viveu
Que cada pessoa que cruzar meu caminho eu lembre que é única e amada por ti
Que o seu Espírito faça a obra em mim e através de mim, pois para isso Ele foi enviado
Que cada pessoa que me buscar eu possa levá-la aos teus pés para que tenham vida
E que eu lembre que o teu Reino está dentro de mim e não no que eu faço

Eu sei Pai, que não importa onde estou, nem o que faço, sou teu filho
Então te peço que em cada falha você me tome pela mão
Leve-me de volta ao caminho que seu Filho andou, caminho de obediência e serviço
Ajude-me a entender que até minhas boas obras não servem, se não forem em ti
Eu quero te agradar Pai, sempre e acima de qualquer outro.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Ave Maria, A Transgressora


Olá.

Vim aqui só pra escrever algumas palavras. Nada muito comprido, não.

Ontem foi Dia das Crianças. Também foi o dia em que os católicos comemoram o aparecimento da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

Queria aproveitar a data para falar sobre Maria, a mulher que inspirou a imagem que muitos adoram como se tivesse poderes mágicos, mas que, na verdade, é uma lembrança, como um retrato, de uma grande mulher.

Nesses dias pensei sobre a vida de Maria, e como ela foi subversiva desde o início de seu ministério (que, acho, começou quando ela foi visitada pelo anjo).

Não só ela foi uma subversiva por ter carregado o filho de Deus em seu ventre, passando pelas adversidades de uma gravidez fora dos padrões do casamento, enfrentando seus vizinhos e parentes e até alguma desconfiança que possa ter vindo da parte de seu marido, mas também foi subversiva por acreditar que seu filho seria o salvador do mundo, por ter confiado e o obedecido.

Diferentemente da maioria dos protestantes, quando leio a passagem das bodas de Caná, quando Jesus aparentemente é grosso com sua mãe (pelo menos é essa a impressão que as traduções me passam), Maria não estava sendo intransigente recebendo uma bronca de seu filho, mas estava é querendo ver as coisas resolvidas. Ela foi ousada, e tentou algo que ninguém ainda tinha tentado: pedir algo a Jesus. Nesse momento ela foi intransigente e subversiva como mãe, mulher e cristã.

Que possamos seguir seu exemplo, assim como seguimos os exemplos de Paulo, Pedro, Tiago, André e os demais apóstolos, e tenhamos a vontade de ver a transformação das situações, da água sem gosto para o vinho da alegria de Deus, e não ficarmos com medo das respostas atravessadas que possam nos dar, sejam respostas vindas de amigos, colegas de trabalho ou de nossos próprios familiares.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Igreja?

"No início, a igreja era um grupo de homens centrados no Cristo vivo.
Então, a igreja chegou à Grécia e tornou-se uma filosofia.
Depois, chegou à Roma e tornou-se uma instituição.
Em seguida, à Europa e tornou-se uma cultura.
E, finalmente, chegou à América e tornou-se um negócio." Richard Halverson