sábado, 2 de novembro de 2013

Amar o próximo

Você ama o próximo?

Esse é um assunto mais do que batido. Todo mundo fala, todo mundo sabe, já foram feitas várias pregações e palestras sobre o tema, mas quase ninguém consegue praticar. Talvez, um dos maiores motivos seja o desconhecimento do significado de “amor” para Deus. Amor, uma palavra tão usada, de formas tão distintas, com significados tão diversos, que é possível que o que Jesus quis comunicar ao dizer “ame o próximo”, não tenha hoje o mesmo sentido que ele desejou que tivesse. Além disso, nossa sociedade é tão egoísta, que o mais comum é vermos pessoas usarem esse mandamento como forma de proteção para seu ego e estilo de vida. Não é comum o seguinte uso: “Ué, Jesus não mandou amar o próximo? Você tem que me amar como eu sou!” ou: “Como você pode ficar indignado assim? Jesus não mandou você amar o próximo?”. Esse tipo de argumento está longe de retratar o que Jesus disse. Primeiro porque amar não tem nada a ver com aceitar tudo (inclusive em muitas situações é justamente o contrário), não ter opinião sobre nada ou ficar calado para não causar mal estar ao próximo (o próprio Jesus que o diga). Segundo, Jesus mandou cada um amar seu próximo e não cobrar que os outros o façam em benefício próprio. O amor é uma doação e não uma reivindicação!

Para entender um pouco sobre o amor que Jesus falou, temos que tentar enxergar algum exemplo prático da parte de Deus ou de Jesus. João, em seu evangelho disse: “Deus amou o mundo de tal maneira, que deu seu filho”. Temos duas palavras chave: “amou” e “deu”. Essas duas palavras nos dão uma dica sobre o significado desse amor, que não é teórico ou sentimental, mas prático. Porque amou o mundo, Deus deu algo. E não deu qualquer coisinha, um presentinho comprado no shopping ou mesmo em uma concessionária de veículos 0 km. Deus aquilo que ele tinha de melhor, de mais valioso, que lhe era insubstituível por mais poder que o próprio Deus tivesse... Jesus era insubstituível! Deus correu todo o risco. Entretanto, se o exemplo de Deus fica muito distante; afinal ele era Deus, temos o exemplo de Jesus, Deus encarnado, que como disse João mais tarde: “Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós...”. Veja bem: conhecemos o amor nisso, que ele deu! Novamente ele deu algo que não tem preço. Não pode ser reavido, não da mesma forma como foi entregue. Ele deu a própria vida! Esse é o amor de que Jesus fala. Não um sentimento, capaz de fazer bater mais forte nosso coração, suar nossas mãos ou nos levar às alturas. Mas uma decisão difícil, dura, que é capaz de nos levar à sepultura.

Você ama? O próximo?

Vamos agora para a segunda etapa dessa pequena ordem de Jesus: o próximo! Havia um homem muito bondoso, justo e fiel. Ele era dedicado à luta pelos fracos, as minorias. Ajudava em diversas iniciativas, sempre presente em manifestações populares, dedicado a ensinar a igualdade e fraternidade entre os homens. Esse homem, em uma viagem para conhecer comunidades carentes na África, se deparou com um jovem que fora assaltado e espancado. Tentou buscar ajuda com outras pessoas, mas ninguém se importava com o desconhecido. Não havia hospital público em que pudesse levá-lo e o aconselharam a chamar as autoridades e deixa-lo só. Ele desconfiava que se deixasse, o desconhecido morreria, pois sabia como era carente aquela região. Ele estava de posse de uma considerável quantia em dinheiro que iria usar para ajudar uma comunidade carente daquela cidade a ter o mínimo de condições de higiene e saúde. Pensou que poderia usar o dinheiro para buscar ajuda e interná-lo em um hospital particular, mas vacilou, pois ao salvá-lo poderia deixar de beneficiar muitos outros. Salvar o homem seria uma tarefa solitária, que não teria grande impacto social e certamente não mudaria o mundo. O que fazer?

Sem medo de errar, Jesus salvaria o desconhecido. Como posso afirmar isso? Pelo simples fato de que foi isso que ele fez! Jesus, com toda sua força, poder e liderança poderia ter feito coisas extraordinárias pela humanidade durante os poucos anos que passou no mundo. Pensem bem, as mulheres eram tratadas como lixo, a escravidão era normal, era comum o sacrifício humano em cultos, um governante tinha o direito de mandar matar todos os bebês de sua cidade, sem que nada lhe acontecesse. Jesus tinha condições de mudar tudo isso. De lutar pelos fracos, de ajudar os necessitados, de libertar os cativos e mudar os rumos daquela sociedade. Mas não o fez! O que Jesus fez foi mudar a história de indivíduos. Ele acudiu quando o fraco, o necessitado e o cativo tornaram-se um “próximo”. Ele o fez quando teve condição de olhar nos olhos deles, amá-los e mudar a história de cada um. Ele não libertou o cativo como parte de um grupo, de uma minoria; não restabeleceu a justiça social. Ele libertou a adúltera que seria apedrejada em sua frente, o cego que o interpelou pelo caminho, a mulher à margem da sociedade por causa de um fluxo de sangue que tocou em suas vestes, o cego que gritou em seu socorro... Ele não lutou pelas minorias, ele lutou por pessoas; ele não amou as minorias, ele amou os que cruzaram seu caminho; ele não libertou o escravo de seu amo, ele libertou o escravo de si mesmo. Ele amou os discípulos, serviu aqueles que andavam com ele, comiam com ele, dormiam com ele; e os amou até o fim, mesmo em meio a muitas falhas.

Você ama o próximo como a ti mesmo?

Por que Jesus falou para amarmos o próximo como a nós mesmo? A resposta é simples: porque se amarmos alguém como nos amamos ele não será mais um na multidão. Não será uma causa a ser defendida, uma classe de pessoas a ser auxiliada. Afinal, quando se trata de amor não queremos ser mais um na multidão. Queremos alguém que nos ouça, que olhe em nossos olhos, que valorize nossos problemas, que esteja conosco nas nossas necessidades, lutas e fraquezas. Dizer eu amo os pobres da África, eu amo as crianças ou eu amo os injustiçados é pura balela. Você não ama nada! Você pode ter dó, piedade, misericórdia ou algo assim. Amor não. Veja bem, não estou afirmando que não devemos lutar contra as desigualdades sociais, em favor do oprimido. Estou dizendo que lutar pelos oprimidos não é amar o próximo. Se você luta pelos oprimidos, parabéns! Continue em sua labuta e desejo-lhe vitória em todas as suas batalhas. Mas se você não ama o próximo, não está cumprindo o mandamento de Jesus. Um não substitui o outro. Jesus não lutou pelas classes oprimidas de seu tempo, mas amou intensamente todos que cruzaram seu caminho. Militar pode ajudar a melhorar a sociedade, se obtivermos sucesso, amar certamente muda a nós mesmos e a quem amamos, e sempre se obtém sucesso. Talvez não o sucesso pomposo que se obtém ao ser um líder social que logra êxito em seus projetos...

É certo que, se todos amassem o próximo não seria necessário luta social... Isso é possível?

Eu acho o seguinte: nunca alcancemos uma sociedade em que todos amem o próximo. Entretanto, aos que se dizem seguidores de Jesus, amar o próximo é obrigatório. Boa sorte!


sábado, 5 de outubro de 2013

Seguir os passos de Jesus – Somos inúteis

O primeiro ponto, e talvez o mais importante a ser observado para se obter algum êxito em seguir os passos de Jesus, é entender, no mais profundo do seu ser, que você é um inútil [1]. Faça uma busca em seus livros cristãos e jogue fora todos os que dizem que você é especial, filho do Rei, que Deus tem um propósito maravilhoso para sua vida, que você é cabeça e não cauda, que você nasceu para dominar as nações e todas essas baboseiras. Não dê esses livros para ninguém, prestaria um desfavor a um amigo. Separe-os e toque fogo em todos eles. Faça uma fogueira santa e dance alegremente em volta das chamas. A verdade que deve ser entendida é que você é inútil para o Reino de Deus [2], você não serve, não tem nada de especial e muito menos tem um chamado para ser alguém especial. Fique feliz se conseguir ser mais um em Cristo [3].

O segundo ponto é: além de você ser inútil, Deus não lhe promete nenhum tratamento especial por ter decido aceitas as Boas Novas do Reino [4]. Nenhuma diferença no dia-a-dia, nenhuma vantagem sobre as demais pessoas, e nem mesmo uma vida mais feliz e tranquila. A verdadeira promessa que nos foi dada é contrária a isso tudo [5]. Se alguém lhe prometer algo diferente do que o próprio Jesus prometeu, fique atento, é fraude das brabas [6]! Se você está indo de vento em popa, sem nenhuma preocupação e todas as coisas cooperam para seu bem estar, desconfie. O que deve estar ocorrendo é que você se moldou há esse século [7] e está totalmente vendido ao príncipe desse mundo [8], vivendo na arrogância e se achando um cristão de primeira estirpe, um abençoado. Se colou algum adesivo no carro dizendo: ganhei de Jesus, sou filho do Rei ou pior, não sou dono do mundo, mas sou filho do dono, a coisa está péssima para seu lado. Afinal, pense bem, que é o dono desse mundo [9]?

Temos que lembrar, sempre, que nem mesmo Jesus se achava alguma coisa, ou fazia alguma coisa porque ele era bom; ou se achava bom [10]. Tudo o que ele fazia vinha do Pai, nada era diretamente dele [11], de sua capacidade ou da lembrança de sua vida pregressa nos céus. O fato é que Jesus fez algo impensável. Abriu mão de tudo o que era para tornar-se servo [12]. E olha que o que ele abriu mão está infinitamente mais distante do que qualquer coisa que possamos comparar em nossas vidas. Ele abriu mão da eternidade, abriu mão de ser Deus, abriu mão de todas as suas prerrogativas celestiais. Se ele apenas negasse sua infinita grandeza divina e viesse para reinar na terra, subjugar todos os reinos como homem, só que sujeito às mazelas da humanidade, já seria algo impressionante. Mas, além disso, ele, inexplicavelmente veio servir a humanidade que não tinha nenhum interesse por ele [13]. E pior, não veio servir com sua infinita capacidade, inerente a sua posição e conhecimento, veio ser submisso em tudo a Deus. Não pode nem usar seu imenso potencial [14].

Então para seguir Jesus precisamos começar do começo. E o começo é renunciar a tudo o que somos e temos [15], todas nossas fortalezas e fraquezas. É entender que sem Jesus nada podemos fazer [16]. É nos revestirmos do mesmo sentimento que houve nele [12] e, mesmo sendo dignos de grandes coisas, nos tornarmos servos obedientes a Deus, sabendo que tudo que é bom vem dele [17], deve ser feito por ele e todo crédito vai para ele [18]. Para nós não tem glória, para nós não tem prêmio, para nós não tem pagamento, pois somos inúteis, fazemos apenas a nossa obrigação [19]. A única coisa que podemos obter, se de fato somos como Jesus, é o mesmo tratamento que ele obteve [20]. Se estivermos sendo tratados melhor do que ele, certamente não estamos buscando o mesmo que ele buscava.

Então, quando sentir que foi injustiçado, que as pessoas estão sendo hipócritas e só você é verdadeiro. Quando for traído e perceber que todos falharam com você, ao invés de sair por ai praguejando, dizendo que não existe igreja, que Deus é papo furado, fique alegre [21]. Afinal, foi assim que aconteceu com Jesus, ele foi traído pelos mais íntimos [22], abandonado pelos amigos [23], injustiçado pelos mesmos que curou nas ruas, pois escolheram salvar o ladrão e crucificá-lo [24]. E pasmem, não praguejou contra Deus, nem mesmo ficou de mal de seus amigos [25]. E sobrou espaço em seu coração para perdoar os guardas que praticaram atrocidades com ele, pois “não sabiam o que estavam fazendo” [26]. E, se ficar difícil, pois afinal, você merecia algum tipo de respeito e consideração, lembre-se que Jesus, esse sim merecia respeito e consideração. Ele deixou o céu, abandonou todo o poder e eternidade, para se tornar mortal e finito. Foi injustiçado, ultrajado, torturado e morto, sem nenhuma culpa. Você, provavelmente, é tão falho, hipócrita, mentiroso, traíra, quanto àqueles que condena. Talvez, seja apenas incompetente para estar por cima e injustiçar os outros... ainda não teve essa oportunidade. Ou teve, aproveitou e nem percebeu.

[1] Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis.Não há quem faça o bem, não há nem um só. Romanos 3:12
[2] Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. João 15:5
[3] Onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo, e em todos. Colossenses 3:11
[4] Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos. Mateus 5:45
[5] Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo. João 16:33
[6] Novamente o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles. E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares. Mateus 4:8-9
[7] E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus. Romanos 12:2
[8] Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência; Efésios 2:2
[9] Sabemos que somos de Deus, e que todo o mundo está no maligno. 1 João 5:19
[10] E Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém há bom senão um, que é Deus. Marcos 10:18
[11] Mas Jesus respondeu, e disse-lhes: Na verdade, na verdade vos digo que o Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma, se o não vir fazer o Pai; porque tudo quanto ele faz, o Filho o faz igualmente. João 5:19
[12] Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Filipenses 2:6-8
[13] Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. João 1:11
[14] Mas é para que o mundo saiba que eu amo o Pai, e que faço como o Pai me mandou. João 14:31
[15] E dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me. Lucas 9:23
[16] Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. João 15:5
[17] Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação. Tiago 1:17
[18] Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém. Romanos 11:36
[19] Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer. Lucas 17:10
[20] Lembrai-vos da palavra que vos disse: Não é o servo maior do que o seu senhor. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa. João 15:20
[21] Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós. Mateus 5:11-12
[22] E Jesus lhe disse: Judas, com um beijo trais o Filho do homem? Lucas 22:48
[23] Então, deixando-o, todos fugiram. Marcos 14:50
[24] Disse-lhe Pilatos: Que é a verdade? E, dizendo isto, tornou a ir ter com os judeus, e disse-lhes: Não acho nele crime algum. Mas vós tendes por costume que eu vos solte alguém pela páscoa. Quereis, pois, que vos solte o Rei dos Judeus? Então todos tornaram a clamar, dizendo: Este não, mas Barrabás. E Barrabás era um salteador. João 18:38-40
[25] Disse-lhes Jesus: Vinde, comei. E nenhum dos discípulos ousava perguntar-lhe: Quem és tu? sabendo que era o Senhor. Chegou, pois, Jesus, e tomou o pão, e deu-lhes e, semelhantemente o peixe. E já era a terceira vez que Jesus se manifestava aos seus discípulos, depois de ter ressuscitado dentre os mortos. João 21:12-14
[26] E, quando chegaram ao lugar chamado a Caveira, ali o crucificaram, e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda. E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. E, repartindo as suas vestes, lançaram sortes. Lucas 23:33-34

Agradecimento a Bíblia online (www.bibliaonline.com.br) por facilitar o copiar e colar.

Postagem original: http://filhoimperfeito.blogspot.com.br

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O Avassalador

'Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.'
Você pode dizer que é aquele ou aquilo outro, mas perto disso nem coça!


Cheguei à essa conclusão ao meditar sobre a obstinadíssima frase dita por Jesus, num dos seus momentos de mais intimidade com seus discípulos conforme o Evangelho de João. Perto da humilde petulância do Senhor, até mesmo a musica 'sou foda', dos 'Avassaladores' (que apesar de engraçada, era um dos maiores exemplos de prepotência do funk) não passa de um insignificante mimo de criança insolente, mas, após meditar sobre esses temas, vi uma certa semelhança entre eles, e, no batidão, a Palavra do Senhor foi revelada a mim.

A letra de 'sou foda' me faz lembrar os poemas de Salomão, carregados de temas sexuais e de fervorosas declarações de amor, que encontram solo fértil e inspiram muitas das musicas evangélicas, ilustrando por sua vez, um relacionamento de amor entre A Noiva e o Amado.

Apesar de muito cantadas, essas letras de amor parecer ter raso efeito em muitos corações. Eu mesmo já me comovi com muitas delas, mas poucas vezes me deixei ser transformado, ou apenas tocado de verdade por esse amor. Acostumados com as musicas baratas sobre relacionamentos (que em sua maioria são frustrantes), não conseguimos nos deixar levar para muito além quando o assunto é 'poesia romantica cristã'. Parece que o chaveco é fraco, dificilmente rola um clima... Difícil entender esse romance. Um ex-padre precisou dizer que "Deus não só me ama, como gosta de mim" pra que eu começasse a perceber isso.

- Pô, mas pera aeh... antes que você vomite, deixe-me explicar:

João (irônicamente, aquele que é citado no evangelho como 'discípulo a quem jesus amava') foi um dos apóstolos que mais bateu nessa tecla. Talvez, por causa de como veio a ser conhecido, seja um dos que mais experimentou esse amor ou dele teve revelação - definindo e julgando todas as pessoas, ele diz de maneira completamente preconceituosa que "Se alguém não ama, não conhece a Deus, pois Deus é amor!". COMO ELE PODE TER CERTEZA?!?!? NEM EXISTIAM CDS - LOVESONGs NAQUELA ÉPOCA!!!

Exatamente. João experimentou o amor pessoalmente. Na revelação viva daquele que é dito "Ser Amor."

Jesus foi chamado por João e pela maioria de todos os que se referem a ele como 'Senhor'. E, apesar de ter dito e mostrado que seu Governo não é dessa terra, é coroado como Rei dos Reis. No apocalipse, o relato da sua poderosa imagem faz gelar os joelhos e tira o sono de crianças (e alguns adultos também). Nos Salmos e profetas é aclamado como "Senhor dos Exércitos, O SENHOR forte e poderoso, o SENHOR poderoso na guerra."!!!

-Toda essa conversa sobre senhorio e poderio e o cara não pegou numa pedra pra vencer???? Fala sério!!! O cara apanhou até de rabinos (RABINOS) e não fez nada? Morreu pelado, coroado com espinhos? Este é o seu Senhor?? É este 'O Valente mais forte' que expulsa o ladrão da casa?

Sim. Este (que ao lhe ser oferecido o poder sobre toda a terra em troca de uma adoraçãozinha ao diabo numa dupla tentação, lembrou-se de que o coração humano não se ganha verdadeiramente através da força, e por causa disso que havia despido-se de toda sua glória, tomando a forma de SERVO, fazendo-se semelhante aos homens) respondeu: -Ao Amor adorarás, e só a ele servirás.

Este é o Senhor. Pois seu governo não está nas coisas transitórias, que desmoronam e não resistem ao tempo e à corrupção humana. Mesmo vivendo em lugar um dominado pelo maior império da época, com maior poderio militar, seus seguidores diziam ter por Senhor um 'cordeiro'.

Ao se entregar como uma ovelha muda para a morte mais vergonhosa que um mestre poderia ter, ele deu seu golpe de estado. Absolveu e absorveu todas as culpas daqueles a que o negaram e assassinaram. Ao morrer, não pedia clemência ou um pouco mais de tempo para talvez uma vida mais feliz, mas entregou seu espírito tendo completa a sua missão impossível: amar os 'inamáveis'. Os odiosos, os despresíveis, os repugnantes, os não-atraentes. Aqueles a quem nenhum governo ou poderio bélico poderia subjugar e proteger. Aqueles a quem só se pode por sob seu serviço servindo. Aqueles a quem nenhum presente poderia cativar e atrair o olhar, exceto o amor, comprado pelo alto preço da própria vida.

Seu amor é destruidor. É um incêndio que consome. É uma enchente que lava multidões de pecados. Ele diz: "desafia-me, e eu te arrebentarei no chão. Abaixarei a tua guarda e te tornarei meu vassalo."

Seu amor é um governo ao qual todo joelho se dobrará, assim como foram os daqueles que o prenderam: sem violência.




-


Perto desse poderio, a fraca poesia evangelica e a sensualidade merketeira do funk não conseguem ir muito longe. Por isso foi dito que você não conhecerá a Deus se não conhecer o amor, assim como você foi amado por Ele primeiro.

Agora, independemente de quem você diz ser, você ousaria conhecer esse amor? Abaixaria a sua guarda?

Como o galã dos Canticos de Salomão ele se declara, e assim como o jão do digdin ele quer a tua atenção. Fará dancinhas muito mais criativas por apenas um olhar seu. Em todo o universo aos seus pés, nada lhe é mais precioso do que o seu amor, e nenhum lugar preferível do que estar ao seu lado.


'Todas que provaram não conseguem esquecer... o 'EU SOU' sinistro!




-


Para não focar só nas minhas palavras, ficam os sons aeh, para que de acordo com o sua preferência musical, você possa meditar e elevar o seu espírito na revelação do Amado.



Em um buzo, diogostozo - o fodinha* (*o servo não é maior do que o seu Senhor).

Sou Foda - Os Avassaladores
http://www.youtube.com/watch?v=RIBkK5X_3mo

Mensagem de Amor - Os Paralamas do Sucesso
http://www.youtube.com/watch?v=0BzPJKmcnaw

Tu És o Meu Amado - Nívea Soares
http://www.youtube.com/watch?v=Lh_xbWEocQM

sexta-feira, 8 de julho de 2011

E as minhas Boas-Novas?

Percebi hoje que um dos piores efeitos colaterais do distanciamento que os cristãos têm tomado dos ensinos de Cristo não é fora de mim, é dentro. Ele tem enfraquecimento às boas-novas para minha vida pessoal. Percebi isso após iniciar uma leitura do evangelho de Matheus, em busca da visão de Cristo de Shusaku Endo, descrita no livro Alma Sobrevivente. Esse Jesus descrito por Shusaku eu já vi meio embaçado, precisava clareá-lo e verificar o quanto é verdadeiro para mim.

Ao iniciar minha leitura estava com sede de encontrar o Jesus humano, amoroso, misericordioso, compreensivo com os humildes, o homem que me inspira a viver de modo digno, a buscar algo além do conforto, da disciplina moral, do ajuste social, da aceitação pessoal e ministerial... Enfim, buscava inspiração do Espírito capaz de levar-me além de tudo que é passageiro e cessará com minha morte.

A leitura começou bem com a genealogia de Jesus pelo lado de José. É bom ver Matheus apresentar a ascendência de Jesus pelo lado do pai e não de Maria. Mostrar o parentesco de Raabe e Betseba, mulheres que não se encaixam no perfil de perfeição da época. Segui com a meditação sobre a generosidade de Jesus, permitindo-se nascer em pobreza, dificuldade, perseguição, quando na verdade ele é o próprio Deus, criador. Sua humildade ao ser reconhecido por João Batista, não negando quem era, mas afirmando que ele mesmo está embaixo de uma autoridade maior. Inspirador.

Foi quando comecei a ler sobre o ensino de Jesus que senti os efeitos colaterais que falei anteriormente. A cada exortação de Cristo eu me lembrava de líderes que se encaixam perfeitamente na descrição que Jesus fazia dos hipócritas. Homens ricos de espírito, que não choram pelo próximo, ávidos por uma briga, injustos, sem misericórdia, com coração impuro, perseguidores dos fracos. Isso só nas “bem-aventuranças”, que tratam conceitos do interior humano. Quando passei para a outra parte que a coisa ficou feia! Reconciliar com o irmão? Não lembro se já vi um líder fazer isso. Cobiçar a mulher do próximo? Isso eu já vi algumas vezes, bem como dar “carta de divórcio”. Em compensação dar a mais do que o pedido; poucas vezes. E quando Jesus fala sobre vários exemplos de exercer “justiça” publicamente para receber a admiração dos homens? Aiaiaiaiai! Veio a mente desde pastores conceituados, orando e “curando” lindamente em público, como pastores de pequenas congregações e grupos underground fazendo marketing de seus “grandes feitos” pelo Face, Orkut e Blogs. Só o fato de fazer marketing já é lamentável e se encaixa direitinho na repreensão de Jesus, o pior é que alguns relatos são mentiras deslavadas.

De alguma forma me senti privado das minhas boas-novas. Aquelas que batem forte dentro do peito, fazem lembrar Cristo, rever as próprias limitações e ter esperança que a vida é muito mais que coisas terrenas e passageiras. A última coisa que gostaria é ter essas pessoas como companheiras quando busco minhas boas-novas. Sem que eu percebesse isso se tornou comum em minha vida. Quem sabe devido à leitura de blogs apologéticos, que se levantam em defesa do “verdadeiro cristianismo”. Ou talvez por experiências com pessoas, que se diziam comprometidas comigo, mas quando chegou o momento de mostrar o compromisso fugiram, fazendo justamente tudo quanto condenavam abertamente. Não sei e no momento isso não importa. O que preciso é expulsar esses intrusos; indesejáveis que a meu convite entraram em minha vida íntima e roubam meu pão.

Estou fechando essas portas, iniciando o penoso trabalho de colocar os intrusos para fora e recuperar minhas boas-novas. Vou guardar para eles o mesmo espaço que Jesus guardava: fora de sua vida íntima e no centro de suas críticas abertas à hipocrisia. Vai ser uma luta ferrenha e silenciosa. Espero que nessa luta Deus continue me incomodando, me dando a fome necessária para que eu não me contente com bolotas de porcos, que muitos tem comido e chamado de alimento espiritual. Afinal, é pela fome de comida verdadeira servida pelo Pai, que não posso me contentar nem com porcarias, nem com privação.


Filho Imperfeito

sexta-feira, 24 de junho de 2011







  "Uma longa disputa, significa que ambas as partes estão erradas."
(Voltaire in. CURY, Fernanda. A vida e o pensamento de Voltaire. Minuano Cultural, p. 8)


       Não é preciso saber muito sobre Voltaire para chegar à conclusão de que o mesmo escrevia e agia, muitas vezes, de maneira à atender os seus interesses individuais, ainda que o mesmo discursasse de maneira à prezar pelo coletivo. Mas, mesmo sabendo dessas imperfeições, é inegável a relevância e a sabedoria de muitas das falas deste grande poeta, dramaturgo e filósofo do século XVIII.  Gostaria de deixar aqui minha sugestão frente à um auto-exame que tenho feito frente à atenção que dou à determinadas discussões, muitas vezes desnecessárias.
  
     O que toca o meu espírito na fala de Voltaire, somada com a imagem acima que representa uma disputa desigual, é perceber que inúmeras vezes nós, que nos esforçamos para concebermos uma leitura de mundo mais honesta intelectuamente e também em essência prática, acabamos por nos contradizer quando fazemos usufruto dos conhecimentos adquiridos para debulharmos alguém em uma acalorada discussão, que talvez não tenha tido ás mesmas oportunidades de acesso ao conhecimento que nós tivemos. Deste modo, nos fazemos tão tolos quanto aquele que  insiste veementemente em um debate sem estar disposto a pensar de maneira humilde, respeitando e considerando a possibilidade do outro estar certo em seus argumentos.

    Não jogar pérolas aos porcos é também uma atitude de amor. Considerar que todos estamos na condição de porcos, em distintas situações, também deve ser uma.


Fonte: http://dennisportell.blogspot.com/2011/06/sabendo-hora-de-parar.html

terça-feira, 21 de junho de 2011

A Voz do Paradoxo



O paradoxo entre fé e razão
Entre a dúvida e a certeza
Entre o amor e a ilusão
Que destoa minha tristeza

Não é mais do que a busca
Intrinseca em entender o que é o amor
Em entender o que é a entrega
Abrir mão do meu querer

Em meio aos meus sonhos surge a voz
Que interrompe o meu sono
Me desperta para o dia
Mais um dia surreal

Voz de alguém que se levantou
Enquanto muitos  se deitavam
Voz de alguém que trabalhou
Quando outros descansaram
Voz de alguém que abraçou
Mesmo a quem a desprezasse

Bastará meu despertar?
Tirar os meus pés da cama, terá algum proveito?
Se não for pra entender
O que é esse entregar
Eu prefiro me ajeitar
De novo em meu travesseiro

sábado, 4 de junho de 2011

Sexo e cristianismo

Quebro esse período de afastamento do blog para escrever sobre esse tema que surgiu no grupo Igrejas Alternativas do Facebook. Como troll moderado que sou, acho que a brincadeira, se bem direcionada gera amizades e descobre afinidades. Logo uso o grupo para me divertir e manter contato com amigos, tem sido ótimo! No entanto para escrever algo sério o espaço do Face foi pouco...

Sexo e afetividade
Acredito em um Deus generoso que nos presenteia com prazeres que dão cor a nossa existência. O sexo é um deles. Entretanto, parece que o uso desses prazeres de forma desenfreada e sem direção traz dano ao corpo e alma do ser humano. A minha impressão é que cada prazer está associado e uma necessidade física, mental ou emocional. O prazer sexual está ligado a necessidade de afetividade, assim como o paladar a necessidade de alimentar ao corpo. Já ouvi relatos de adeptos do sexo casual e segundo eles o maior prazer não é o coito, mas a sensação de ser querido, desejado e dominar o sexo oposto.

Observando pessoas envolvidas em um meio onde o sexo casual é aceito e às vezes incentivado, a impressão é que existe uma necessidade de aumentar a dose de extravagância para atingir o mesmo nível de satisfação. Incluo também pessoas adeptas a pornografia, que a cada dia buscam imagens mais radicais. Alguns perdem emprego, família e às vezes, a dignidade.

Portanto, me parece que o sexo que faz bem é o proporciona não apenas o prazer sensual (dos sentidos), mas também o prazer afetivo. Todo o ser humano, independente da fé, necessita ser amado e ter um relacionamento especial com o sexo oposto. Se você não tem interesse em meditar sobre Deus, seu caráter; sobre a vida de Jesus, pode para por aqui e tenha uma vida feliz!

Sexo e cristianismo
Ao falar sobre sexo e cristianismo a abordagem muda de foco. A ótica não é mais centrada somente no ser humano e em como usar o prazer sexual para uma vida sadia, mas em entender o que Deus tenta comunicar com o prazer e a privação do mesmo. Uma das marcas populares do cristianismo são suas leis, que impedem o pleno aproveitamento dos prazeres disponíveis. Por quê? Acredito que uma parte dos cristãos obedece sem meditar seriamente no motivo, outra parte desobedece e diz que obedece e outra parte tenta mudar as leis para que se adéquem ao seu estilo de vida.

Não tenho a intenção de exaurir o assunto ou trazer a plena verdade, mas desejo compartilhar uma meditação. Ao estudarmos os ensinos de Jesus expressos nos evangelhos, poucos deles nos trazem satisfação natural. Quem está cheio de vontade de amar o inimigo? Quem se alegra em dar a outra face ao ser ferido ou humilhado? Quem se satisfaz em dar esmola a todo aquele que pede? E ainda: quem está ansioso para assumir uma relação com outra pessoa até que a morte os separe, e ainda ter nessa pessoa sua única fonte de prazer sexual?

Qual é a intenção de Deus, que nos presenteia com prazeres sublimes e coloca regras para usufruí-los? Acredito que esse é o centro da questão. Se olharmos apenas pela ótica humana e natural, não faz sentido. Líderes tentam mostrar as vantagens da santidade e os castigos que recebem os que não a seguem. Balela! Uma pessoa que nunca se preocupou com o evangelho, teve uma vida focada em sua satisfação pessoal, manteve vários parceiros sexuais, pode morrer velha, rica e feliz, enquanto um crente fiel pode fazer uma transfusão de sangue, pegar AIDS e morrer com a doença que dizem que é castigo de Deus para os chamados imorais. Qual o benefício nisso?

Outra explicação comum é a vida eterna. Oh, delícia, receber após a morte um galardão, que ninguém sabe de fato o que significa e morar no paraíso. Por isso sim, vale a pena negar os prazeres, pois estou de olho na recompensa futura e quando lá chegar irei tripudiar dos infiéis que se esbaldaram em seus prazeres. É isso? Se essa for a única motivação estamos falando de um negócio: não uso disso, para depois usar daquilo. Também não explica o fato de Deus, em sua infinita sabedoria, graça e amor, ter feito os prazeres para se tornar nossa pedra de tropeço.

O ponto central que vejo nos ensinos de Cristo é que Ele ensina aquilo que viveu. Ele amou os inimigos, deu a outra face, deu esmolas, atendeu a todos os pedintes, obedeceu ao Pai em tudo, foi humilde podendo ser arrogante, foi servo podendo ser rei, foi pobre podendo ser rico, deixou toda sua fortuna (um valor inestimável) e veio viver conosco; como homem. Chega a beirar o absurdo! Vamos pensar: haveria prazer em Cristo se descesse da cruz quando fustigado a fazê-lo? Decerto que sim. Haveria satisfação em dominar os hipócritas, vencer os exércitos e tomar o governo a força? Inevitavelmente! Ou não? Uma coisa é certa: se haveria prazer e Ele não fez, podendo fazer, não se parece comigo, pois eu faria. Se não haveria prazer em fazer, se parece menos ainda comigo, pois eu acho que seria um prazer imensurável dar uma lição nos hipócritas e em Roma.

Não seriam então os ensinos de Cristo focados em nos fazer como Ele e o Pai e não na negação dos prazeres para recebermos recompensas? Uma mudança sutil? Não creio. E se para sermos transformados necessitamos possuir uma minúscula amostra do poder do Pai, para que negando seu uso possamos ser transformados a semelhança daquele que nos criou, que pode tudo e não o faz? O foco então é SER como Ele, não TER algo Dele. Loucura?

Pode homens e mulheres comuns desejarem ser como Deus? Adquirir seu caráter, se parecer com Ele? Qual o preço disso? Tenho para mim esse é o centro do evangelho, isso me motiva a continuar admirando Deus, Jesus, o Espírito. Enxergar seu caráter, sua vida, sua natureza, nas palavras escritas, santificadas ou não, nos livros, nas pregações. Porções de Deus ministradas por pessoas imperfeitas como você e eu. Que em um momento, no monte são instrumentos vivos do Espírito e na sequência pedra de tropeço para o mestre e instrumento de satanáz.

Ao pensar em Deus, seu caráter e natureza, não tenho nenhuma dúvida de que Ele é homem de apenas uma mulher, fiel e capaz de se entregar por ela. Para mim, tenho provas suficientes de seu amor, aceitação, perdão e fidelidade. Ele aguarda sua noiva e irá desposá-la, enquanto isso permanece santo, independente da postura de sua amada. Poderia simplesmente destruir tudo, separar-se da criação e arrumar outra. Ou mesmo fazer outra, agora perfeita, sem repetir os erros da primeira, e adulterar com ela.

Portanto, com todas as minhas forças, quero ser como Ele: fiel, perdoador, homem de uma única mulher, que zela e cuida sendo capaz de morrer pela amada sem titubear. Encontrar no sexo mais do que um prazer sensual ou uma ligação afetiva, mas a celebração de uma aliança, de uma união que só a morte pode separar. Acredito que todos que confessam o nome de Cristo devem levar essa marca. Vejo que as palavras de Jesus sobre o assunto, retratadas por Matheus, Marcos e Lucas, bem como a inspiração de Paulo ao escrever sobre o tema refletem esse caráter, essa inspiração divina.

Para finalizar, no dia 18 de junho deste ano celebro 17 anos de casamento, e agradeço ao meu bom Deus que permitiu que eu casasse com esse desejo, de ser como Ele. Por isso hoje posso celebrar com minha esposa e filhos, como família.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Seria uma teoria?!?

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Se eu fosse Deus

Se eu fosse Deus seria um tirano,
a nenhum mortal daria livre-arbítrio
Todos os pensamentos passariam pelo meu crivo
e apenas os aprovados habitariam as mentes

Pesaria os sentimentos em minha balança,
para os leves habitarem o coração dos homens
Forçaria o riso espontâneo e a lágrima de alegria
Nos rostos expressão de felicidade desenharia

Não haveria o abandonado e o nu,
nem quem tivesse mais que seu próximo
pois de tão próximos seriam um.

A única lei seria o amor entre os homens
Pois pensando bem, esse Deus que eu seria,
ao homem como ele é, não amaria.

Escrito por Marcos Siqueira em 22 de setembro de 2010.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

sábado, 11 de setembro de 2010

Rabiscos

Lindos rabiscos, uma vida inacabada
Rascunhos de um cotidiano sem valor
Prometem uma obra-prima gloriosa
De finos nuances e grandes realizações

Venha! Venha ligeiro terminar sua obra
É você, você que saiu de mim, se foi, fugiu
Deixou o lápis na mesa, o papel sedento de carícias
Rabiscos vivos, grandes promessas

De ódio trovejo ao abandono
E gritos surdos deixam meus lábios
Na esperança de encontrar meus ouvidos

E lá me vou ao longe, fugaz como de costume
Olhando-me com a melancolia dos abandonados
Deixando para trás lindos rabiscos

domingo, 4 de julho de 2010

Mais Cristo, menos Cristianismo

Mais Cristo, menos Cristianismo

Ed René Kivitz

Toda religião está estruturada em dogmas, rituais e códigos morais. O Cristianismo também. Mas não são os dogmas, os rituais e os códigos morais que definem a experiência pessoal com Cristo. O apóstolo Paulo esclareceu que os seguidores de Jesus não podem ser reduzidos a observadores de rituais e padrões morais.

Cristo é maior que o Cristianismo. Por essa razão, a adoração a Cristo é mais importante que a defesa do Cristianismo, e a imitação de Cristo é mais importante que a adesão ao Cristianismo. Ser como Cristo e fazer mais por Cristo, eis as legítimas aspirações de todo aquele que se comprometeu com o caminho de Cristo.

Leia o artigo completo no Pavablog!

terça-feira, 29 de junho de 2010

Insanidades cristãs

Hoje recebi de duas fontes distintas uma informação bizarra: abriu-se um sex shop gospel que vende produtos abençoados um a um por meio da oração do casal de proprietários. Acho lamentável o tino comercial do povo crente, que encontra um filão para ganhar dinheiro e ainda turbina seu negócio com um marketing espiritual cada vez mais bizarro. Pior ainda é a multidão gospel, afoita por novidades, que adere sem nem mesmo pensar no assunto com um mínimo de seriedade.

Não que eu tenha algo específico contra os sex shops. Eu simplesmente não sou consumidor de pornografia, mas conhecendo o mundo como vai, deve ser um negócio lucrativo. O que me espanta é a esperteza de se usar um rótulo evangélico e atingir um público totalmente alheio a qualquer bom-senso, que além de aderir à bobagem ainda fala mal do “ímpio” (nem tão ímpio assim), que freqüenta sex shops “não cristãos”. Afinal: “todos os nossos produtos foram abençoados e toda a maldição foi quebrada”! Dá vontade de mandar pra lá, não?

Que cristianismo é esse? Que droga é essa que estão dando para esses crentes que faz com que eles engulam tanta besteira com tamanha facilidade? É sex shop gospel, é pastor que dá testemunho que teve relações íntimas com demônios, é irmão que visitou o inferno e viu o diabo posando de carcereiro, é pastor preocupado em emburrecer as ovelhas para que elas continuem a prover o luxo de seu sustento. Que droga de evangelho é esse? Sou cristão, mas vendo essa porcaria que estão pregando por ai me sinto obrigado a concordar com Karl Marx... “a religião é o ópio do povo”. Aliás, tomo a liberdade de discordar somente na droga: a religião é o chá de trombeta do povo. Quem já tomou sabe do que estou falando.

Então, levantam-se do outro lado, empunhando a bandeira da santidade, os moralistas. Cristãos tradicionais, cheio de leis morais e regras de conduta, levantando a voz contra o cisco no olho do outro e em seu próprio tem dez traves. Grande parte envolvida em pecados ocultos, adultérios, mentiras, falsidades, falta de amor, politicagem religiosa e amor ao dinheiro. Basta se aproximar um pouco desses para que a verdade seja revelada. Então perdem a moral, pois as Boas-Novas não foram suficientes para transformá-los em pessoas semelhantes a Jesus, mas em pessoas como os fariseus. Cheios de aparência, sem nenhum conteúdo; ou pior, com conteúdo: carniça! Não sei qual postura dá mais nojo.

Então o mundo assiste de camarote essa demência coletiva que se tornou o cristianismo “gospelizado”. Somos escárnio, motivo de chacota em programas humorísticos, de piada em roda de amigos. E tudo com plena razão. De um modo geral os cristãos estão se tornando um bando de alienados, massa de manobras de pessoas mal-intencionadas, de empresários prá lá de espertos, de pastores que comem exclusivamente carne de ovelhas. E tudo isso com o rótulo gospel, abençoado pelas orações, e com um toque de missão evangelística. Acordem tolos, antes que seja tarde! Olhem para Jesus, para a sua obra, sua vida. Para a vida dos apóstolos. É tão difícil perceber que tem algo errado?

Esse desabafo eu termino com um lamento: se hoje eu não conhecesse Jesus e o evangelho, NUNCA, NUNCA me tornaria cristão pelo testemunho público da igreja. Preferiria zelar pela minha sanidade mental.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Sobre Deus

Os seres humanos especulam a respeito de Deus há alguns milhares de anos. Eu, por ser também um humano, não me furtarei a fazer a mesma coisa. Entretanto, distante do dogmatismo típico de alguns setores religiosos, quero deixar claro que minha posição não passa de especulação, dessas assim feitas na mesa do bar, no ônibus ou sentado no vaso sanitário. Este pensamento me ocorreu enquanto navegava pela internet. A parte que fala sobre Kafka me ocorreu um pouco antes, durante uma palestra sobre o mesmo escritor, proferida pelo filósofo Benedito Nunes.

Me lembro bem que há algumas horas atrás eu frequentava um fórum de discussão virtual, no qual o assunto era a homossexualidade dentro da igreja cristã. Ou melhor, a aceitação da homossexualidade pela igreja cristã. Em outro fórum outras pessoas discutiam a respeito de interpretações do texto bíblico. Aparentemente, todos os usuários da internet possuem convicções autênticas diretamente reveladas por Deus. Alguns até fazem dEle as suas palavras, dizendo: “Deus não se agrada disso, Deus não se agrada daquilo”. Tais pessoas têm muita sorte por Deus não processá-las por uso indevido de imagem, difamação, ou simplesmente mandar chuva lá de cima até que todo mundo morra afogado.

Minha especulação sobre Deus não tem pretensões tão altas. Aparentemente não faço a menor ideia do que se passa pela cabeça dEle. E talvez não faça sequer ideia do que se passa pela minha própria cabeça.

Prossigamos.

Minha especulação diz respeito ao modo como Deus se relaciona com os seres humanos. Se a bíblia estiver certa, sabemos que Ele trava esse relacionamento através do Espírito Santo. O que não significa que sabemos de alguma coisa. Outros, mais ortodoxos e amantes da palavra escrita, confiarão à bíblia a tarefa de orientar os seres humanos, conjuntamente com o Espírito. Eu eliminaria a bíblia desta história, ou melhor, não a eliminaria, mas reduziria o seu papel, que me parece estar supervalorizado. A bíblia, sem o Espírito, não serve para muita coisa. São só palavras, e os livros não transformam ninguém.

Então temos o Espírito, além de uma primeira orientação do seu trabalho: se Ele atua através da bíblia, então o Espírito age em uma perspectiva intelectual. Não creio ser essa uma conclusão satisfatória. As operações intelectuais não transformam de todo as pessoas, é preciso de algo mais. De boas intenções o inferno está cheio. Existem muitos que compreendem a mensagem do amor, mas que não a colocam em prática. O Espírito precisa de uma segunda orientação para seu trabalho: a perspectiva da ação. O conhecimento intelectual e o conhecimento prático do evangelho são duas camadas que se sobrepõe mutuamente, se interpenetram.

Entretanto, o prisma intelectual é um engano. Muitos são os meios pelos quais os seres humanos “aprendem” a serem “bons”. Os instrumentos morais que a sociedade inventa, as leis, as instituições, tudo isso é prova de que o lado intelectual da coisa não funciona. É pura dissimulação. O homem impregnado de uma retórica que o protege da verdadeira finalidade: a prática. A receita do bolo sem que ninguém tenha a disposição para fazê-lo.

Definitivamente, minha especulação não compactua com a ideia de que Deus se relacione com os seres humanos através da intelectualidade. Intelectualidade no sentido de apreensão cultural, de utilização da linguagem. Exterminem os programas de teleproselitistas, mas Deus continuará agindo em nosso meio. Cortem as línguas de todos os cristãos, mas Deus continuará agindo em nosso meio. Queimem todas as bíblias, todos os livros que falem sobre o amor e coisas boas, e Ele continuará dando as caras.

Minha especulação, caro leitor, supõe que Deus não se relacione com os seres humanos através de linguagem. Não podemos compreendê-lo e apreendê-lo intelectualmente, racionalizá-lo, esquematizá-lo, nem em um ciência positivista e tampouco em uma ciência relativista e pós-moderna. Não existe ciência de Deus, no sentido de conhecimento sobre. Toda teologia é sobre homens, e não sobre deuses.

Não quero limitá-lo a acreditar que Deus é incapaz de relacionar-se conosco através de nosso intelecto. Até porque tudo em nós é intelecto. O que quero dizer é que este relacionamento é de outra ordem. Que chamem de absurdo, de inexprimível, indizível, mas palavra alguma poderá revelar Deus aos humanos. Nem palavras, nem qualquer outro tipo de linguagem. Ele é radicalmente distinto. Ele é Espírito, e como tal, age em nosso espírito, fomentando mudanças práticas e atitudes (como se pode constatar nas histórias dos evangelhos) e não mudanças intelectuais. Não é o crer, mas o fazer crendo.

Não sei até que ponto a crença é importante para o relacionamento com Deus, isso tudo permanece obscuro e faz doer meu cérebro ao tentar compreender. Como eu disse, minha especulação é justamente a da incompreensão do relacionamento com o divino.

Mas lembre-se: é apenas uma especulação.



----------



Existe um conto de Franz Kafka que é bastante conhecido, chamado Metamorfose, que já faz parte do cânone da literatura mundial. Nele, Gregor Samsa acorda metamorfoseado em um inseto, sem qualquer explicação aparente. Sua família, é claro, sente-se extremamente surpreendida com o fato. No desenrolar dos acontecimentos, Gregor Samsa vai gradativamente perdendo todos os laços afetivos com a família, até que esta não reconheça no inseto o filho que havia antes. Gregor acaba morto, varrido por uma empregada.

Há ainda outro conto de Kafka, um pouco menos famoso que o anterior, chamado Relatório para uma academia, no qual um macaco conta sua história desde o momento em que foi capturado na floresta até o momento em que escreve o tal relatório, contando todo o processo gradativo no qual se ajusta à sociedade humana, adquirindo diversos conhecimentos que o fazem um exemplar raro, híbrido entre animal selvagem e humano culto.

Em Metamorfose o que está sublinhado, pelo menos para mim, é o processo de desumanização de Gregor Samsa, até o momento em que ali já não existe um membro da família, mas somente um inseto. O tempo todo, porém, Gregor está consciente de sua situação de inseto. Seu intelecto ainda é humano. Para a família, porém, aos poucos Gregor perde a capacidade de se comunicar: sua voz transforma-se apenas em zumbidos animalescos, seus gestos corporais são apenas movimentos de inseto. Não há ponte que possa fazer a ligação entre ele e os demais seres humanos. Não existe linguagem capaz de fazer esta ponte.

Em Relatório para uma academia o que está sublinhado (repito: pelo menos para mim), é o processo de humanização do macaco. Sua lenta e gradual aquisição da linguagem humana, em uma luta travada tanto pelo macaco quanto pelos humanos que lhe serviram de mestres. Aquisição da linguagem verbal, gestual, escrita, comportamental. O macaco aprende a se comportar tal qual um humano, sem ignorar sua natureza de macaco. O que o faz dar este salto qualitativo, de macaco a humano, é a necessidade de uma saída. Uma saída que o desobrigasse das prisões destinadas aos animais, e o permitisse as “liberdades” destinadas aos homens. Este salto qualitativo, é claro, é o domínio da linguagem. A linguagem serve de ponte para que o macaco se humanize e se relacione com seus “semelhantes” a partir de então.

A linguagem não está no homem, mas o homem é que está na linguagem. A linguagem o domina, o utiliza. Gregor está inviabilizado para tal uso. Portanto, aos poucos deixa de ser reconhecido como humano, até que finalmente sua família o tem por completamente desumanizado. Apenas um inseto inconveniente e asqueroso. Já o macaco, através de um esforço enorme, salta da linguagem de primata para a complexa linguagem dos humanos.

Partindo disso, quero voltar para minha especulação a respeito de Deus.

A linguagem – principalmente nossas linguagens idiomáticas, que permitem a racionalização do conhecimento – é responsável pela quebra do relacionamento entre Deus e os homens. O momento em que tentamos compreendê-Lo é o mesmo momento em que Ele nos escapa. Quando tentamos transubstanciá-lo em versículos, liturgias ou preleções estamos apenas criando cultura. Estamos humanizando algo que é da ordem do divino, intelectualizando algo que é da ordem do espírito. Criando somente códigos simbólicos que não possuem valor algum, além do valor cultural/intelectual.

Uma vida cristã autêntica, segundo minha especulação, deve percorrer o caminho inverso daquele ensinado pela igreja, pela escola, pelas instituições. Não se parte de um conhecimento socialmente construído para uma vivência pautada nesse conhecimento. Não se aprende o bem para praticá-lo. Não. A vida cristã é de uma direção inversa. Deveremos ignorar, sempre que necessário, todo o conhecimento culturalmente adquirido, e partir para uma vivência pautada no relacionamento direto com Deus, sem mediações, através da própria imanência do Espírito em nós. Nossas ações guiadas através de Deus, tudo na ordem do indizível, inexprimível absurdo. Partindo desta vivência de mundo, iluminada pela divindade, é que construiríamos um repertório intelectual.

Em suma, não agir segundo a moral dura, repressiva e burra ensinada pela sociedade. Essa moral que é criada apenas para manter o funcionamento de todo um sistema de valores econômicos, políticos, religiosos, culturais etc. Não devemos agir segundo essa moral, que nos é imposta da sociedade e internalizada. Deveremos, sim, agir conforme a ética que surgirá do relacionamento entre os seres humanos. Ética que deve nascer do amor. Já não se trata de tratar o mendigo, o empresário ou o sacerdote conforme a moral, a etiqueta, o código cultural ensina. Mas sim de agir individualmente, conforme a ética criada na relação entre os indivíduos, pautando-se no amor para construir relações verdadeiras e afirmativas da potência da vida.



----------



É claro que esta é uma situação idealizada. Para que ela acontecesse, seria necessário que já nascêssemos conscientes de nosso relacionamento com Deus. O que não deixa de ser uma hipótese interessante: será que já não é inerente a todo ser humano tal relacionamento? Não com o Deus quadrado e restrito do cristianismo, mas com a noção geral de Deus, de força cósmica, de prática do bem e do amor.

O que também me agrada nesta especulação é a aniquilação do relacionamento com Deus mediado pelo conhecimento. Nunca simpatizei com um Deus erudito. Se o relacionamento não é racionalmente compreensível, então não se torna restrito para as pessoas com deficiências cognitivas e intelectuais. Quem disse que os autistas não se relacionam com Deus e vice-versa? Bem, sabemos que quem disse isso foi a própria Igreja...

Afinal, prosseguindo com o exemplo do autista, tal indivíduo pode não possuir a capacidade intelectual de compreender os dados do evangelho racionalmente. Ele não poderá pronunciar as palavras mágicas, não confessará Jesus como único senhor e salvador de sua vida. Está excluído, portanto, do povo remido pelo sangue, num fantástico golpe de marketing da teologia cristã em geral, centralizando o amor de Deus nas mãos dos detentores do código cultural. Mas pergunte a mãe de um autista do mais alto grau se ele é capaz de amar, e vejamos o que ela responderia. O amor não conhece as fronteiras da linguagem ou do intelecto, afinal ele é afirmação da vida, e a vida é imanente a todos os seres humanos (mesmo aqueles de comportamento condicionado pela moral social vigente, como eu). O relacionamento com Deus ultrapassa a necessidade da crença, da confissão da fé cristã. Entretanto, talvez não ultrapasse a necessidade da atitude, da prática cristã.

O problema todo começa quando passamos ao relacionamento propriamente dito. Sem receita de bolo nós, seres humanos, nos sentimos desamparados. A imanência direta de Deus nas nossas ações, a chamada prática do amor (seja ele cristão ou ateísta), requer um outro tipo de salto qualitativo, diferente daquele dado pelo macaco em direção à linguagem. É o salto em direção ao absurdo de Kierkegaard. O passo em direção a atitudes autênticas, não programadas racionalmente, atitudes de afirmação da vida (principalmente afirmação da vida do outro).

Viver este relacionamento é a parte mais fácil e mais difícil. Fácil porque, como eu e minhas especulações malucas diríamos, é bem razoável que a relação com Deus seja inerente ao ser humano. Essa capacidade de amar que todo mundo parece ter, nem que seja a de amar unicamente a própria vida. E difícil porque, para manter tal relacionamento, seria necessário que nós nos despíssemos aos poucos das mediações culturais e intelectuais que fazemos a todo o momento. Seria preciso respirar por um momento fora da cultura, ignorá-la. Esquecer da bíblia, dos evangelistas, dos poetas, dos hereges, dos amores, e deixar que somente a voz de Deus se sobressaia. A voz de Deus, obviamente, não é compreensível ao nível da linguagem, mas somente ao nível do corpo em ato, da prática, do fazer. Não é apropriado dizer “voz de Deus”, mas talvez seja mais como um comando, um impulso exercido sobre nós, por livre e espontânea vontade nossa. A permissividade do servo ao seu senhor. Assim como a permissividade do senhor em se revelar íntimo ao seu servo.

Vale dizer que não vejo este relacionamento com Deus como uma colocação mística, um transe espiritual. Espiritual sim, mas nem sempre um transe. O relacionamento com Deus é aquilo que nos coloca em experimentação direta com nosso próprio cotidiano; não pela ótica dos comportamentos determinados pela cultura e convenções sociais, mas sim pela ótica dos comportamentos autênticos, criativos e possibilitados pelo amor. Relacionar-se com Deus é relacionar-se com o mundo, com o outro e consigo próprio.

Espero não ter pronunciado nenhuma blasfêmia.

Saliento mais uma vez que isso tudo é apenas uma especulação. Como não sou nada espiritual, fico exercitando meu intelecto na tentativa de aprisionar Deus em algumas folhas de papel. Apesar de que nunca funciona.

Eu passarei. Eles passarão. Deus passarinha.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Matem os comentaristas

de Søren Kierkegaard, tradução por Walter Cruz


A massa atual de intérpretes da Bíblia tem prejudicado, mais do que ajudado, o nosso entendimento dela. Na leitura dos acadêmicos, tornou-se necessário agir como se faz em uma peça de teatro, onde a profusão de espectadores e luzes impede, por assim dizer, nosso prazer da peça em si e, no lugar disso, somos tratados como pequenos incômodos. Para ver a peça, temos de ignorar essas coisas, se for possível, ou entrar por um caminho que ainda não tenha sido bloqueado. O comentarista [da Bíblia] se tornou um intrometido dos mais perigosos.

Se você quer entender a Bíblia, certifique-se de lê-la sem um comentário. Pense em um casal apaixonado. Ela escreve uma carta para o seu amado. Ele estaria preocupado com o que os outros pensam dessa carta? Ele não a leria toda sozinho? Colocando em outra forma, nem passaria pela sua cabeça ler essa carta com um comentário! Se a carta de sua amada estivesse em uma linguagem que ele não compreendesse, então ele aprenderia essa linguagem, mas certamente não leria a carta com o auxílio de comentários. Eles seriam inúteis. O seu amor por sua amada e a sua disposição de cumprir seus desejos o tornariam mais capaz de entender sua carta. O mesmo se dá com a Escritura. Com a ajuda de Deus, podemos entender a Bíblia toda corretamente. Cada comentário retira algo, e aquele que se senta com dez comentários para ler as Escrituras estará provavelmente escrevendo o décimo-primeiro, mas certamente não estará lidando com as Escrituras.

Suponha agora que essa carta apaixonada tenha um atributo único: cada ser humano é alvo desse amor. E agora? Deveremos nos sentar e discutir o significado uns com os outros? Não, cada um de nós deveria ler essa carta individuamente, como se fora o único indivíduo que tivesse recebido essa carta de Deus. Na leitura, estaremos preocupados principalmente conosco e em nosso relacionamento com Ele. Não nos focaremos em detalhes como 'essa passagem pode ser interpretada dessa forma' e 'aquela passagem pode ser interpretada dessa outra forma', não! O importante para nós será agirmos o mais rápido possível.

Será que o amado não pode nos dar algo que nenhum comentarista pode? Pense nisso! Nós não somos os melhores intérpretes de nossas próprias palavras? Depois disso, [o melhor intérprete] é aquele que nos ama. E em relação a Deus, não seria o verdadeiro crente o Seu melhor intérprete? Não nos esqueçamos: as Escrituras são as placas de sinalização, Cristo é o caminho. Matem os comentaristas!

É claro, não são apenas os comentaristas que estão errados. Deus quer forçar cada um de nós a voltar ao essencial, para um início infantil. Porém não queremos estar nus dessa forma perante Deus. Todos preferimos os comentaristas. Assim, cada geração que passa fica ainda mais fraca.

O que realmente precisamos então é de uma reforma que coloque a própria Bíblia de lado. Sim, isso tem tanta validade agora quanto Lutero rompendo com o Papa. A ênfase atual em voltar à Bíblia tem, tristemente, criado religiosidade do aprendizado e dos sofismas literais – um desvio total. Esse conhecimento tem sido repassado de forma trágica para as massas de modo que ninguém mais pode tão-somente ler a Bíblia. Todo nosso aprendizado bíblico tornou-se uma fortaleza de desculpas e escapes. Quando se trata da vida, da obediência, sempre tem alguma coisa com a qual precisamos lidar primeiro. Vivemos sob a ilusão de ser necessária a interpretação correta ou termos uma crença perfeita, antes como pré-requisitos para começar a viver – isto é, usamos isso como desculpa para não fazer o que a Palavra diz.

Há muito tempo, a igreja tem precisado de um profeta que, em temor e tremor, tenha a coragem de proibir o povo de ler a Bíblia. Sou tentado, portanto, a fazer a seguinte proposta: recolhamos todas as Bíblias e as levemos a um lugar aberto ou a uma montanha e, então, enquando todos nós nos ajoelhamos, alguém fale com Deus desta forma: "Leve de volta esse livro. Nós, cristãos, não estamos aptos a nos envolver com tal coisa; ela somente nos torna orgulhosos e infelizes. Não estamos prontos para ela". Em outras palavras, eu sugiro que, como aqueles habitantes cujos porcos foram precipitados na água e morreram, imploremos a Cristo para "que deixe nossa vizinhança" (Mt. 8:34). Isso ao menos seria uma declaração honesta – algo muito diferente do erudicionismo nauseante e hipócrita que é tão comum hoje.

A questão toda é muito simples. A Bíblia é muito fácil de entender. Mas nós, cristãos, somos um bando de vigaristas cheios de intrigas. Fingimos que somos incapazes de entender porque sabemos que, no mesmo instante em que entendermos, seremos obrigados a agir de acordo. Pegue quaisquer palavras do Novo Testamento e esqueça tudo, exceto comprometer-se a agir de acordo. Você dirá: "Meu Deus, se eu fizer isso, minha vida inteira será arruinada. Como eu poderia ser bem sucedido no mundo?"

Aqui reside o verdadeiro lugar da erudição cristã: a erudição cristã é a prodigiosa invenção da igreja para se defender da Bíblia, para garantir que possamos continuar a ser bons cristãos sem nos aproximarmos demais da Bíblia. Oh, erudição preciosa, o que faríamos sem você? Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo. Sim, é mesmo horrível ficar a sós com o Novo Testamento.

Abro o Novo Testamento e leio: "Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e segue-me". Bom Deus, se nós realmente fizéssemos isso, todos os capitalistas, os legisladores e os empresários, de fato, toda a sociedade, seria composta de mendigos! Estaríamos afundados, não fosse a erudição cristã! Louvados sejam todos que trabalham para consolidar a reputação da erudição cristã, que ajudam a reprimir o Novo Testamento, esse livro confuso que nos desmontaria se fosse realmente livre (isto é, se a erudição cristã não o reprimisse).

A Bíblia ordena com autoridade em vão. Ela admoesta e implora em vão. Nós não a ouvimos – ou seja, nós ouvimos sua voz por intermédio da interfência da erudição cristã, os experts que foram apropriadamente treinados. Assim como um estrangeiro que protesta seus direitos em um idioma desconhecido não se importa em dizer palavras ousadas face a autoridades – mas, veja, o intérprete que traduz o que ele fala para as autoridades não se atreve a fazê-lo, mas substitui essas palavras por outras mais amenas – assim é a Bíblia lida pela ótica das interpretações cristãs.

Declaramos que a erudição cristã existe especificamente para nos ajudar a entender o Novo Testamento, de forma que possamos compreendê-lo melhor. Nenhum homem insano ou prisioneiro de Estado foi tão confinado quanto o Novo Testamento. Embora todos fiquem preocupados, ninguém nega que eles estão enclausurados, mas as preocupações em relação ao Novo Testamento são ainda maiores. Nós o enclausuramos, mas alegamos estar fazendo o oposto: que estamos muito ocupados ajudando o Novo Testamento a ter mais clareza e direção. Mas, é claro, nenhum maluco ou prisioneiro de Estado seria tão perigoso para nós como o Novo Testamento, se ele fosse livre.

É verdade que nós, protestantes, fizemos um grande esforço para que cada pessoa pudesse ter a Bíblia – mesmo na sua própria língua. Ah, mas que esforços nós tomamos para insistir junto a todos que ela pode ser entendida apenas por intermédio dos acadêmicos cristãos! Essa é a nossa situação atual. O que tenho tentado mostrar aqui é facilmente declarado: eu queria fazer as pessoas conscientes e admitir que acho o Novo Testamento muito fácil de compreender, mas, até agora, tenho achado tremendamente difícil agir de maneira literal sobre o que ele diz de forma tão clara. Eu talvez pudesse tomar uma outra direção e inventar um novo tipo de acadêmicos, trazendo à tona ainda mais um comentário, mas estou muito mais satisfeito com aquilo que eu tenho feito - fiz uma confissão sobre mim mesmo.

________

domingo, 9 de maio de 2010

A Criaçomm

segunda-feira, 3 de maio de 2010

formspring.me

Perguntaí http://formspring.me/amaurialves

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Painel de José Régio

Sei que o luar era medonho, era amarelo, e que tudo isto me parece um pesadelo, e creio, talvez, que meu vago pensar me transporte para o momento mesmo em que, com tanta angústia, atravessei o portal que me separava da crua, fria e intensa realidade, daquele caminho cheio de pedras que nos leva da vagina maternal ao buraco na terra que maternalmente nos engole.

O que importa é o riso doido e cínico, sem regra, que subia em mim como uma onda negra, e, estrelados de lágrimas, meus olhos inocentes ajoelhavam ante os dois vultos desmedidos que me esmagavam, crescendo sempre, entre meus risos e gemidos, entre os quais me sentia pequeno e miserando.

Os dois homens se portavam um a cada lado meu, sem que me atrevesse a olhá-los, apenas adivinhava-os e pressentia-os, um dos quais de vestes brancas e limpas, a face reluzente de anjo de luz, o olhar plácido e cativante, as meigas palavras, as doces lágrimas, as promessas, as mãos eclesiásticas e macias que provavelmente beijei, como que para pedir a benção, todo trêmulo e confuso, cheio de amor e de terror por esse intruso.

O outro, figura peregrina, com olhar profundo, mãos grossas e sujas, aroma doce de bálsamo disfarçando o odor fétido do corpo suado e do sangue derramado, porventura culpado de derramar muito sangue, sua face despida de qualquer beleza ou encanto, suas promessas desprovidas de qualquer sedução, diante do qual me postei de pé, como que insultado pela afronta da presença de tal moribundo, que despertava em minha memória vozes funestas que advertiam: carrega tua cruz!

E como eu não o fizesse, o desgraçado em afronta ainda maior tomou todo o jugo do meu fardo sobre seus próprios ombros. E pus-me a segui-lo.

Ou melhor, dispus-me a segui-lo, entretanto sem nunca tê-lo feito.

----------

Este texto faz alusão ao poema Painel, do português José Régio.